segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

FAZENDA PIXEL (Segunda Parte)

E assim foi feito.

Numa manhã de sábado ela desembarca sua pequena mudança em uma nova vida. De uns cômodos de porão na dura periferia da metrópole para uma casa de quatro quartos, banheiros, quintal, varanda etc no centro da microcity.


Finalmente estávamos juntos e vamos arrumar nossas coisas, nossas vidas. Instalar a casa, a nova família. Escola pra filha, aulas de arte, novas amizades, uma vida mais digna.
E assim tivemos um período de lua de mel com as novidades.

Durante a semana ela cuidava das suas vidas, dos imóveis, aluguéis, enquanto eu ia para a bigcity trabalhar.


Fins de semana eu voltava para o ninho.


Saíamos a passear, levá-la a conhecer a região. Íamos de carro por estradinhas serpenteantes nas montanhas. Visitávamos os picos mais altos admirando estonteantes paisagens a se perderem de vista. Exploramos fundos de vales, cachoeiras naturais, suas enormes sambaias e cipós.


Escalamos muralhas naturais de pedras sentindo o vento no rosto, alegrias de simplesmente estar juntos, sorrir, viver sem ansidedade.


Em belvederes ao sol, pendurados sobre o abismo, sorvemos a amplitude da paisagem. Arroubos dos céus, grandes ondulações de montanhas em tons de verde se esmaecendo até a azulada cadeia de serras no horizonte.


Descobríamos recantos mágicos e seus riachos maravilhosos. Casinhas de sonhos, alegremente floridas, riachinho de água gelada em frente.

Taperas abandonadas em grotões, jaboticabeiras servindo-nos o mais delicioso dos néctares.

Muitas pamonhas com cafezinho à beira de estrada. A vida um manso preencher de atrações.

Aquilo que seria um sonho, parece que seria melhor ainda. Depois de uma existência enfiada na grande cidade, comecei a pensar que era hora de mudar de vida, voltar às origens.

Mas enquanto isto, para que o sonho se tornasse real, eu deveria estar alimentando bem mais fortemente a conta bancária da parceira. E isto não acontecia. Bem menos do que gostaria era o que eu podia remeter.

Ela cuidava dos aluguéis, encaminhava os acontecimentos em relação as casas de renda, recebia e repassava religiosamente os valores. Havia a orientação de que se precisasse, poderia usar o necessário. Mas no início não tocava em dinheiro do coletivo. E eu, de outra parte, falhando em não remeter uma quantia que a deixasse tranquila.

De alguma forma tínhamos chegado em um ponto de virada. Talvez inconscientemente não me esforçasse muito em mantê-la como uma dondoca no interior. Talvez quisesse que ela descobrisse por seus méritos as virtudes econômicas do local. Não apetecia uma pessoa que estagnasse e se aboletasse numa situação patriarcal. Bem, por todas as razões ocultas do mundo, fato é que o dinheiro pingava pouco a partir da grande cidade para a outra ponta do barco. E ele vai naufragar.

Aos poucos aquela situação de razoável conforto rodeada de pouco dinheiro, foi esfolando a parceirinha. Climas desagradáveis surgiam aos fins de semana e quase que sistematicamente havia uma descompensada emocional. Voltava pra grande cidade magoado, espinho no coração. Passava a semana me curando no trabalho e no próximo descanso, fatalmente alguma outra ferroada.
Isto foi acendendo uma lampadinha vermelha, alerta.

Alguns telefonemas vindo do interior, às noites, durante a semana, davam voz pastosa falando bobagens. Mais lampadinha vermelhas. Piscantes. Cervejas solitárias ao fim do dia. Quantas ? Todos os dias ?

Numa blitz num fim de semana, escancarou-se a questão do consumo de álcool. Fiz ver a inadmissibilidade da bagaça, fechei questão. Posteriormente o desaparecimento de vestígios me levou tolamente a pensar que a questão fora resolvida.
A continuação do bate-cabeças aos fins de semana me faz agora crer que a bebida vai excretando uma personalidade rombuda, um jeito mais carroceiro de ser. A crueza, o esgarçamento do trato minam o bem-querer.

A qualidade do sexo consequentemente ia deixando a desejar. Os balões que se inflavam pelo perigo, pela beleza negra selvagem, o instinto, agora se ralavam nas pedreiras da alma.
Todo ciclo de uma relação à deriva se instalando.

(dolorosamente continua...)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

OVNÍRICOS

Descendo pela Rua Vicente Chiaradia, direção avenida principal, casarão de minha vó na esquina à esquerda. Noite escura, céu todo embaçado por formações de altas nuvens. Lua ausente, estrelas escondidas, pouca iluminação nas ruas.

De um grupo de pessoas na calçada do casarão, próximo à avenida, alguém sai para atravessar a rua, dá uns passos e cai chapado no chão. Isto me chama o olhar mas eis que naquela direção, ao alto das montanhas, acima das matas do lado norte, vejo pequenas luzes distantes se aproximando. Vêm numa formação semelhante a uma estrela de Davi irregular.

Embora a pessoa tenha caído fico apontando para o fenômeno, saltando, sem conseguir falar.

A formação de luzes atravessa todo o céu acima da cidade, segue e desaparece na direção sudoeste.

Daí a pouco, nessa região, além das montanhas, das árvores e pinheirais, uma grande área do céu vai ficando iluminada. Pelo inusitado tamanho da região intensamente clareada, um grande fenômeno está prestes a ocorrer. Não se sabe o que é, pressinto algo além de qualquer delírio da imaginação.

A magnitude da região banhada de uma luz verde iridescente, bem não dá pra ficar descrevendo muito. Da intensidade da luz banhando todo aquele quadrante do céu, como se fossem mil bombas atômicas, acima do horizonte, começa a se revelar um esqueleto, uma superestrutura de uma máquina voadora fantástica, uma super-nave mãe. Como se fosse um reino, uma cidade completa, dezenas de quilômetros, uma estrutura vai tomando o céu.

Não se consegue divisar partes e detalhes nitidamente. Se percebe a incrível dimensão daquilo mas a luminescência, o intenso brilho exarado não permite identificar concretudes.

Sabe-se que é um grupo sólido de um material desconhecido, âmbar, poderosíssimo, grandes blocos delineados, contornados por um material como que gosma brilhante, florescente, material duríssimo, maleabilíssimo, amarelo-ocre, cor de caroço de pêssego.

Nota-se o delineamento, os contornos de uma grande máquina, imenssíssima estrutura de dezenas de milhares de campos de futebol.

Uma visão de extraordinário impacto. Impressão que se está diante do que há de maior, mais poderoso, avançado no universo. Em grande altitude cruza o firmamento monstruosa carruagem. Segue na direção nordeste, para a mesma região de onde surgiram as luzes iniciais.

Nem bem digerida esta comoção, esta catarse tecnológica toda, olhos esbugalhados mal conseguem se fechar de tanta satisfação, novamente o céu se abre na mesma região sudoeste.

Outra vez acima das montanhas, das silhuetas das imensas árvores e pinheiros, o horizonte ganha feérica iluminação.

Grandiosíssima superestrutura vai se revelando em meio a intensa luminosidade, se aproxima lentamente para o meio da abóbada celeste, sobre nossa região.

Havia mais beleza nesta segunda super-nave. Divide-se em suas seções. A primeira como espécie de corpo central, motor avançado, casa de máquinas, pilotagem e a segunda parte, delicada estrutura em forma de bebê recém-nascido, bem embrulhado, lembrando a maneira esquimó, mongol, oriental, de enrolar nenês.

Mas o que se via era o delineamento deste desenho naquele material cor de caroço de pêssego contornando todo o brilho. Tudo isto tomando dimensões de milhares de estádios esportivos. O desenho, delicado, o tamanho, estapafúrdio.

Estou me referindo a possíveis maiores estruturas do tipo existentes no universo.

Parecia que estávamos diante do nascimento do rebento de uma autoridade central, do que havia de mais importante no mundo de onde vinham aquelas criaturas.

A impressão era de que se tratava de uma espécie de arquia do tipo único, um sistema milenar de organização social imperial, monárquico, altamente aglutinado, ancorado em desenvolvimento técno-científico poderosíssimo, extremamente avançado.

E sentimentos não haviam sido eliminados naquela civilização. Pelo contrário. Era uma data festiva e a comitiva se dirigia a outra região do universo.

Lindo, maravilhoso de se olhar. O volume de amor envolvido na operação era gigantesco.

Como se a nave, tudo aquilo, fosse apenas um esquema gráfico. O delineamento feito pelo material amarelo-ocre, cor de caroço de pêssego, a grandeza, complexidade, superioridade, poder e delicadeza de todo espetáculo nos extasiou a todos. De uma beleza, poesia superior.

Já a segunda nave quase tendo saído do alcance da visão, a confirmar o motivo da grande festa, saiu da rabeira de sua imensa estrutura, espécie de nuvem, formações esféricas, coágulos deste material ocre iridescente .

Esta formação vem em direção à nossa região e estaciona a uns mil metros de altura, sobre a cidadezinha.

Dispara maravilhosa salva de fogos. A diferença que estas explosões eram mais suaves e harmoniosas em relação às que conhecemos, tinham sons mais delicados e alegres.
Se via agora que as nossas salvas, nossos fogos de artifício terráqueos, eram nada mais que tentativas grotescas de copiar aquilo que ali ouvíamos.

Fiquei curioso em saber que material seria aquilo. Achei que poderia cair do céu algum pedaço, estilhaço, do material que produzia esta diferente salva.

Estendo o braço, mão aberta. Por sorte vejo, algo se enrosca em meu dedo. Um material parecido como um pedaço de balão de borracha, tripa de porco, material levemente viscoso, esbranquiçado.
Quando começo a analisar, uma voz se aproxima: é.....(diz o nome de um material químico complicado) – encontrado nos cemitérios.


Criado, lavado, ensacado e lacrado em SP, 07/02/2010

domingo, 24 de janeiro de 2010

SAL DA TERRA

Meu nome é Fernando Martinho, moro em São Paulo desde 1975.

Nasci num lugarejo, no interior do estado, com pouco mais de cinco mil habitantes na minha infância.

Me lembro muito claramente, quando aos quatro anos, saindo pelo corredor da casa de minha avó, olhei para a torre da igreja, pensei comigo mesmo: nasci neste lugar pequeno mas quando crescer vou viver na maior cidade que existir.

Quando jovem, minha família morava no Vale do Paraíba. Tinha que decidir onde iria estudar, viver. Se no Rio ou se em São Paulo.

Fui ao Rio e lá fiquei uma semana. Praias, festas, loucuras mil.

Depois vim à São Paulo e fiquei aqui outra semana.

Achei as pessoas aqui mais objetivas, pontuais e tive medo de desbundar de vez se fosse para o Rio.

Decidi que iria morar em São Paulo, me mudei prá cá.

Ao longo dos tempos certos episódios vieram confirmar que estava certo.

O que vou relatar parece estranho, quase um detalhe mas me marcou muito e serviu como emblema pra ensinar um pouco da beleza, da grandeza anônima de muita gente desta megalópole.

Na época, por volta de 1990, trabalhava como representante de várias editoras médicas.

Colocava livros científicos no carro e saía a visitar clínicas, escolas, hospitais, onde houvesse profissionais ou estudantes da área da saúde.

Vou até a Mooca visitar o Hospital João XXIII, próximo ao Clube Juventus.

Meio da manhã, dez, onze horas, deixo meu carro próximo ao hospital, pego minhas tabelas, bolsa com livros e vou em direção à portaria do Pronto Socorro.

Quando estou no meio da rua, chega desembestado um carro esporte bege, acho que um Corcel. Freia bruscamente, desce uma moça chorando, gritando desesperada, pedindo por socorro. Berrava feito louca, implorava para salvarem a vida da mãe, que não a deixassem morrer.

Tinha sofrido um infarto ou acidente vascular cerebral durante o banho, estava estirada no banco de trás, nua, coberta por lençol. Uma senhora de mais de sessenta anos, obesa.


Naquele momento um médico vem subindo a rampa de saída.
O doutor devia ter uns trinta e cinco a quarenta anos. Muito bem arrumado, roupas brancas bem talhadas, elegantes, sapatos brancos impecáveis, maletinha de couro, óculos, cabelos bem cortados. Aparência de especialista bem sucedido.

Tinha feito visitas aos seus pacientes que ali estavam internados, ou cumprido sua passagem matutina por aquele hospital e iria provavelmente para sua clínica ou outro emprego.

Neste instante ele põe o pé na rua, a filha desesperada gritando por socorro à mãe.

Pessoas atônitas olhando uma pras outras, alguém sai correndo pra dentro do hospital, onde tem cadeira de rodas, maca ?, guardas de portaria levam seus rádios à boca.

O médico corre, abre a porta do lado do motorista, deita o banco, entra no carro.

Uma pessoa entra pela lado do passageiro e há aquele instante em que as coisas ficam paradas no ar.

Eu chego bem próximo, testemunho algo que me corta o coração. Uma onda de emoção me pegou com o que vi.

Ninguém mais percebe. Meus olhos estavam lá. Registro e guardo nas minhas retinas pra sempre.

Um pequeno detalhe do que é São Paulo, das pessoas que aqui vivem, do que é a alma de um médico, do que é a grandeza de alguém que traz em si a vocação do dedicar-se, doar-se.

Na urgência, desespero do instante, observei que o doutor, todo limpinho, arrumado, perfumado, se agachou e enfiou a mão por baixo da senhora para erguê-la e poder sair com ela pelo lado do passageiro.

Não conseguiu segurar, as mãos, braços escorregam. No momento em que ele retira os braços e vai se posicionar melhor para levantá-la, percebe manchas de fezes nas mãos, nas mangas da camisa branquinha.

A mulher havia relaxado durante o ataque.

De pé ali ao lado, percebo, não tem um segundo de titubeio. Não vacila um átmo, a menor dúvida, o menor receio. Nunca o impulso de parar, se levantar, chacoalhar a cabeça, mandar chamar o funcionário subalterno, a atendente de enfermagem, quem fosse, para fazer a tarefa.

Instantaneamente, com mais intensidade ainda, sabendo o que havia pela frente, agarra fortemente a senhora, enfia as mãos com mais força os braços, a fim de suportá-la melhor e, bem, pra mim foi o bastante. Me afastei da cena com os olhos embaçados.

A lição humana muito forte.

Fiquei refletindo, sim, valia a pena lutar. Gostava de falar com médicos todos os dias, levar-lhes novidades. Gostava de fazer isto. Havia muitas pessoas dignas em SPaulo, nesta cidade, neste mundo.

Jamais iria esmorecer, tudo o que eu pudesse fazer pelo próximo, ainda seria pouco.

Acho que este médico marcou, esta atitude ficou como símbolo pra mim de toda uma classe de pessoas que se dedicam a salvar vidas de outros, aliviar dores, ajudar terceiros, seja lá de quem for.
Pessoas que vão ajudar em mutirões de toda espécie. Que no seu recôndito fazem a diferença.
Sem olhar para a platéia, sem buscar aplauso.
Uma forma bonita que humanos têm pra dizer a outros, eu amo você.
Você, êle, nós, todos importam.
Dizer que tudo vale a pena.

Na figura deste profissional, na beleza amorosa de seu gesto, se pode homenagear todas as pessoas desta grande cidade grande que anonimamente constroem um mundo melhor.
Pessoas que são o Sal da Terra.

Um beijo pra todo mundo !

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

CARTA A UM PAI - PARTE 2

Levava o mesmo preparado e uma garrafa de café quando pescávamos nos rios das redondezas.
Pegávamos o velho jipe cinza 51, descíamos chacoalhando até alguma região rural onde houvesse um rio de várzea, curvas preguiçosas.
Procurava uma sombra de árvore na beira da estrada para deixar o carro e marchávamos até as margens.
Me ensinava as artes da pesca. Preparar um caniço. Escolher uma vara no bambuzal, cortar, bezuntar, deixar ao sol para curtir.

O jeito certo de amarrar a linha de pesca, escolher o anzol, tamanho adequado para cada tipo de peixe em vista, tipo de nó adequado para prender bem o anzol à linha à vara.
Onde achar e como armazenar isca.
Reconhecer os melhores poços de peixes. Cevar. Lançar anzol na água sem fazer barulho, silenciosamente, sem espantá-los.
Todo ritual de paciente tranquilidade, calma, silêncio, rigorosamente observado. A gentil convivência com borrachudos, insetos e ferroadores do entorno.

Mais que o peixe em si, tirá-lo ou não da água, importante aprender esperar, deixar acontecer o beliscão. Se afobar tirando a isca da água cada momento, ver se ainda está lá. Ficar puxando a vara ao primeiro beliscão nem se quedar desatento, deixando o peixe comer toda a isca, não.

Mais que pescando estávamos treinando a têmpera para vida. Se não desse peixe, se o dia não rendesse, aliás, o que mais soía, paciência. Pescássemos alguns, que delícia, à noite teríamos lambarís empanados na farinha de mandioca, bem sequinhos, no jantar em casa.

O mesmo pai ensinava noções de sobrevivência na selva, na vida.
Quando ao campo, me apresentava os nomes das árvores, dos matos, remédios, frutinhas. Filho, isto aqui é piúva, olha como verga, enverga, não quebra. Os índios usavam pra fazer arco. Para flexas eles usavam.... .

Mostrando os segredos da mata, do mundo rural, milhares de anos de interação de homem com natureza, conhecimento de seus tempos e rítmos, como usá-la para a vida.

Deu-me uma espingardinha cartucheira, me ensinava a cuidar dela. Desmontar peça por peça, limpar, engraxar, remontar. Municiar, atirar. Mirar sem tremer. Acertar o alvo.

Chegou então o dia de caçar. Preparamos os apetrechos, os pios, apitos especiais que copiavam sons de diferentes pássaros; papai tinha vários, para jacu, para inhambu, juriti, sabiá, shopping ibirapuera, campo belo e outros.

Com os pios o caçador embrenhado no mato, imitando os pássaros, dialogando com eles, os traz para perto, conforme sua habilidade.

Relatavam-se histórias de exímios, habilidosíssimos caçadores e pescadores, como o Tio Dito Lino, que alcançou façanhas formidáveis na arte dos pios. Dito Lino era grande artista na imitação de aves com esses instrumentos, tendo mesmo destrinchado várias correntes linguísticas canoras de diferentes espécies voadoras de nossa região de serra.

Conseguia hipnotizar legiões de pássaros sendo conhecido o episódio, ocasião em que tendo saído a caçar, voltou pra casa pra pegar embornás sobressalentes.
Com seu mavioso trinar nos pios, conseguia convencer os pássaros a se entregar.

Exercia sobre as aves um poder tão grande, seu fantástico domínio das melodias e cânticos do mais belo repertório de cada uma daquelas espécies que, um a um, carreiras de jacus, inhambus e outras variedades vinham embevecidos, magnetizados e tantalizados, pousavam no interior de seu embornal. Evitava derramento de sangue. Foi a solução mais justa.

Ele só tinha que pedir para os que estavam na fila que esperassem um pouco, fechava bem a aba para que os que lá estavam se sufocassem, economizando cartuchos, também, é claro. Preço da pólvora era uma barbaridade.
Conseguiu encher os embornás que levava e ainda teve que buscar sobressalentes para dar conta de atender a demanda.


(Minha mente de criança ficava imaginando: mas que mundo maravilhoso este ! Adultos que conseguem inventar apitos que imitam perfeitamente o cantar de um tipo de ave, outro tipo de pios para outras espécies: como conseguem isto ? Só podem ser pessoas geniais. São pessoas com certeza, as mais inteligentes do mundo, que fantástico este mundo maravilhoso dos adultos...).

Nos dias anteriores já tinhamos preparado os cartuchos; papai sempre tinha em casa pólvora, chumbinhos.
Café preto numa garrafa de vidro, o virado de farinha com ovo, o estoque de água e uns pés-de-moleque. Tudo dentro do embornal, o meu, de pano, amarrado ao corpo, o do pai, de verdade, de lona, com aba, presilha forte, resistente.
Calça comprida, camisa até o punho, botinas, chapéus. Íamos então mata adentro.

Embrenhando pelas trilhas de mateiros. Interessante que no interior da mais fechada mata, parece que em todas as matas do mundo, sempre se acham vestígios humanos. Alguém, um dia, um mateiro solitário, já andou por ali. A duzentos anos, ano passado, um dia, sempre tem um humano mergulhado na mata.

Pai à frente, desbravando o caminho, facão lambendo os galhos. Homem e menino se afastando cada vez mais da cidadezinha.

Sons de vida do lugarejo lentamente diminuindo à medida que subiam pelos morros cobertos de mata virgem, a mesma mata que lá já estava quando o Brasil foi descoberto. Cada vez mais trançada de cipós, teias de aranha, gravatás. Espessa, densa, solene. Até que se ouvia ao longe um grito mãe chamando um menino; mais tarde sobressaía uma buzina de caminhão, depois, um suave badalar derramado da torre da igreja, sino lembrando alguma hora morta do meio da tarde. Com muita nitidez o cocorejar de uma galinha espantada, tamanho ovo acabara de pôr.

Íamos chegando ao íntimo da floresta. Não mais vestígios de vida exterior. Somente silêncio enfeitado de zumbidos, alguns pios, estridências de pássaros, água rumorejando em alguma queda nas imediações.

Uma vida brota no interior daquele mundo, distante dos conhecidos sons humanos. Miríade de pequenos sons de insetos, abelhas zumbidos, ruídos inimagináveis crescendo no corpo do silêncio da mata. Silente e majestosa catedral verde iluminada por nesgas de estridências, como relâmpagos na noite. Pios, frases-solos, bravatas, aqui e alí. Pássaros em viagem anunciando passagem.


Toda sinfonia da natureza cadenciando pesadamente no sentir. O pulso da alma coletiva, aquela multidão de vida entrando pelos sentidos, pelas narinas, pele.

Acima das árvores, das altas copas, o azul rendado do céu, o sol. O dia pára, as horas hesitam.
Aqui a vida não precisa de engrenagens, relógios, mecanismos, compromissos. A única máquina, arma superior da criação, dona da vida e morte, está em nossas mãos: o pau de fogo.

Se aprende uma nova habilidade, nova exigência.
Sobrevivência da espécie humana no limite, na fronteira da natureza. Usar todos recursos do conhecimento para se sobrepor ao que é arisco, fugidio. Ao que está em seu próprio mundo e pressente todo perigo.


Atenção criativa, despir o humano, integrar o animal ao primitivo habitat.

Um descuido pode ser fatal.

domingo, 29 de novembro de 2009

CARTA A UM PAI - PARTE 3

O pai me ensinando desaparecer, controlar movimentos, respiração, falar o indispensável quase inaudível. Ficar invisível.

A integração com a selva. Observar sem ser notado.
Cuidado com o perigo, atenção desperta pelo imprevisto real. Pressentir cobras, evitar tarântulas, saber escorpiões. Vigia intensiva e suave. Esperando sem pressa, sem objetividade. Não pisar formigueiros, evitar pousar mão em trilhas de saúvas. Nada de gestos bruscos, rasgados. Paciência, disciplina com exigências do corpo, fome, sêde. Domínio de dores, desconforto, reações sutis à uma bárbara ferroada de borrachudo. Transmutar-se num ser da floresta.

Aos poucos a vida da selva vai retomando sua normalidade, nossa presença se dissimula. Em algum momento aparece a caça. Ouví-la, ver em qual árvore, em que galho está. Localizá-la sem se afobar, melhor visão, calma, paciência, precisão. Gatilho armado, posição correta arma no ombro, postura do corpo, olho na mira, esquecer dor no braço. Tudo controlado. Momento certo. Alegria de caçar.

Aquele que eu um dia eu iria esquecer - não sabia seu tamanho - me ensinava toda uma universalidade de vida. Uma relação dinâmica com os materiais, formas, técnicas.

Sobre meus ombros, continuidade da espécie. Adaptabilidade, domínio das condições adversas da vida logrado pela raça humana alí representada, naquele tempo, época, lugar.

Ensinava fazer arapucas, construir gaiolas de taquara, alçapões, armadilhas para pegar pássaros, coelhos, peixes. Manobrar com ferramentas da oficina, marcenaria, alvenaria, da alfaiataria, lavanderia, borracharia, fecularia, maçonaria, Dito Faria, Lau Faria; habilidades precisas em uma cidadezinha isolada do mundo.

Desde consertar um motor de caminhão à época adequada para plantio de tomate , estaqueamento, veneno, tudo tinha que saber um homem mais a coragem.

Ensinava-me desenhar e construir carretilhas. Recortar papel de seda, preparar varetas de bambu, fazer rabiolas, montar pipas, erguê-las ao céu.
Me ensinou escarvar monjolinhos na madeira para brincar na bica, das mais idílicas lembranças de minha infância. Um moto-perpétuo beijando a natureza em troca de um fiozinho de água.

Escolher, cortar forquilhas, fazer um bom estilingue certeiro com pedaço de couro de sapato velho e borracha de câmara de ar de bicicleta.

Descamar, limpar, fritar um peixe sequinho empanado em farinha de mandioca.
Depenar, abrir, preparar um passarinho.

Ensinava chutar bola, driblar, dar chapéu. Me treinava na elegante arte de ser goleiro.

Fazer canteiros, plantar legumes, apreciar alface, cultivar pepinos (comê-los tenros com pitadinha de sal), beringelas e rabanetes.

Na verdade, você anda na rabeira de um pai, um dia na sua vida é uma vida na sua alma.

Um momento de estar juntos, uma lembrança de uma figura que você amou mas que era mais que amor, é o Pai.
Um pai não fica se derretendo com o filho. Mas cada palavra, doce ou dura, um puxão de odrelha ou uma pequena atenção, uma garrafa de café passada pra você dar um gole, equivale uma lição, uma matéria aprendida.

Um gesto, uma tarde, ficam na eternidade.

No céu infindo das emoções que alimentam o Ser para todo sempre.

Me ensinou apanhar agrião, bem na nascente gelada do riacho, na grota da montanha. Fazer maços, encher um cesto, oferecendo nas casas da cidade.

Sentir o mais gostoso sabor dos picolés de leite com groselha, comprados na sorveteria da Dona Ditinha, com dinheiro ganho por próprio esforço.

Me pega no colo, acostuma com as letras, escrita. Também me bate de vez em quando com uma varinha de marmelo. Me corrige de algo que eu não sabia e até hoje não sei o que era.

Talvez achasse o filho muito mimado para sobreviver naquelas paragens, quisesse domá-lo ao inverso. Adaptar àquele mundo rude. Paciência.

Ensina negociar com o mundo. Foto antiga tirada em visita à capital religiosa de nossa terra, vejo o pai, o menino, a bela jovem mãe.

Lá estava, calças curtas, um pé calçado, o outro na calçadas quentes. Devia ter dado uma topada, descascado o dedão.


Como um espelho de minha vida, até hoje a lembrança imortalizada na antiga imagem marcou minha infância, minha vida.
Sentia vergonha de estar de pé descalço no chão e ao mesmo tempo era parte do meu viver. A força de meu pai ao lado não me permitia vacilar. Como eu tinha que enfrentar aquilo, fazia que o fato perdesse importância. Existia e me fazia não existir ao mesmo tempo. Não era eu quem estava ridiculamente com um pé no chão. Aprendia a me dominar. A figura do pai me deixava em pé.

Tinha um pai, não sabia, não podia saber; ele ainda não podia existir em minha mente em todo seu tamanho. Minha pequena mão segurava a sua mas minha compreensão de menino não o alcançava em todas suas dimensões. Como demora pra se conhecer o próprio pai !

Toda uma vida o acompanhei a lidar com engenhocas, máquinas, motores, carros velhos, sina de uma existência ! Desafiando, mexendo, desmontando, aprendendo.

Uma temporada papai enfrentou desafio de fazer lavoura de tomate, esperança de ganhar bom dinheiro. E lá vai preparar terreno, limpar, arar, eirar. Centenas de estacas de taquara, amarrios e cuidados sem fim. Por fim a muita chuva, a mela. Lavoura, nunca mais !

Um pai dono de armazém, secos e molhados, antes de chegar à cidade a primeira geladeira.


Para servir aos clientes uma cerveja mais fria, estocava as garrafas no porão, subsolo do estabelecimento. Repousadas na terra fria, ganhavam sabor, fresquinhas, agradáveis à freguesia.
Alguém pedia uma cerveja, lá ia o homem abrir o alçapão, descer uma escadinha e retirar a garrafa do solo, no fundo do porão.

Num mostruário de vidro, prateleiras de doces e guloseimas. Meninos pobres, meio largados, me abordavam na rua e diziam que eu era um garoto legal, um menino bonzinho. Que havia um monte de doces lá no armazém e que eles eram amigos meus e que eu podia ir lá e pegar tais e tais doces. E assim eu fiz algumas vezes. Surrupiava e levava aos meninos. Papai percebeu. Disse que de forma alguma, não podia fazer aquilo. Os doces eram pra vender e se eu desse doces para meninos da cidade ele não ia poder mais ter o comércio.
Vem o garoto e pede mais doce. Eu disse que não, não pode.

Era época de festas juninas e atrás da igreja havia uma fogueira de São Joaõ.
Fui até lá e junto com os meninos ficava de cócoras ao redor da fogueira.
O tal do garoto sem doce quiz me punir por cortar o fornecimento do produto. Encheu a mão de cinzas e tascou na minha cara. Volto correndo e chorando pra casa, pro armazém.
Falei que tinha sido o Savinho, me jogou cinza na cara porque não dei mais doces pra ele.
Meu pai me pega pela mão e me leva até a fogueira. Quem foi que jogou cinza em você ? - Foi ele.

Foi tanta força moral, ira sagrada tão contundente que o episódio marcou a era do pai meu herói dourado. Tinha alguém que efetivamente me protegia de pessoas traiçoeiras. Nada de ruim iria me acontecer. Os maldosos temiam sua força, meu mundo era um país soberano.

Era uma tônica em sua vida inovar. Inventar algo novo, agradar clientes, uma oportunidade de ganhar um dinheirinho a mais. Às voltas com uma moenda de cana movida a gasolina, preparando garapa, incrementando seu comércio. Ia até as roças, comprava os pés de cana, lotava o jipe. Depois os descasca, lava e tem a novidade para oferecer aos fiéis clientes. Aos domingos após a missa das dez, seu comércio lotava de sitiantes, chacareiros, clientes humilíssimos porém fiéis e honestos. Faziam as compras da semana, no mais das vezes na caderneta, no fiado. Na conta já incluída uma viagem de jipe até ao sítio, levar o cliente, a mulher, as compras.
Sempre ocoupado, fazendo algo de útil, organizando o negócio, trazendo novidades, incrementado o comércio.

Sim, era um guerreiro mas também por um tempo sua vida tremeu diante do abismo. Por um período também eu não vi futuro para minha existência. Foi uma das poucas vezes em que o vi chorando.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

CARTA A UM PAI - PARTE 1

ERA UMA VEZ HAVIA num remoto vilarejo de um país chamado Brasil, num tempo que se vai muito distante, um menino feliz.

Na pacata e ensolarada cidadezinha incrustrada nos altos de uma cadeia de montanhas, Serra da Mantiqueira, em um vale parecido com o interior de um vulcão, garganta cercada de altos morros cobertos de matas fechadas, o menino tinha um pai.

Não sabia disto, crescia sem perceber e o tempo foi fazendo ver que lá um dia, no tempo do era uma vez um menino tinha um pai.

Estava ao lado, em sua frente mas não o enxergava.

Não sabia que ele era tão especial.

Arrastavam-se os fins dos anos 50, começo de 60.

De manhã, na rádio, enquanto a mãe dobrava cobertas, tirava poeira dos móveis, limpava, varria, se desdobravam tramas e dores d'O Direito de Nascer.

Orientações para amor, negócios, uma sábia condução da vida, sob todos os pontos de vista, eram dadas pelo astrólogo Omar Cardoso.

O país começava a sair do berço esplêndido, olhar o mundo.

A cachorra Laika late no espaço e o Sputinik desafia nossa imaginação.

Era uma vez...

Quando alguém se propõe contar a história de um
menino que um dia teve um pai, não significa que queira relatar tim-tim por
tim-tim todos os fatos que aconteceram, sua rigorosa ordem cronológica,
pormenorizar todos detalhes.

Quando se viveu uma existência inteira, muito se viu, se amou, se
sentiu, desamou.

Coisas que aconteceram no início da jornada, nas primeiras camadas arqueológicas da vida, amontoadas no baú da memória, às vezes trocam de roupa ao longo da
escura noite dos tempos.

As vezes o que se tem são apenas indícios, fragmentos de informações, percepção de intenções que apontam para algo maior do que o momento presente.

Um pai é um pai. Concreto como um queijo fresco.

Mas isto é muito grande, de muito surpassa a possibilidade de caber nas finas letrinhas miúdas rabiscadas numa
folha em branco.

Um pai pode ter sido ótimo, bom, normal, não tão bom, péssimo,
diferente.

É o pai. Não se escolhe. Importa não mais perdê-lo. Para sempre.
Importa amá-lo, re-criá-lo. Como puder ser.

Um menino quando quer falar de seu pai, na verdade, quer construir
uma escada para o céu.

O pai desse menino, homem branco, estatura mediana. Descendente de portugueses, traços mediterrâneos.

Filho do meio de cinco irmãos, trazia temperada em sua aparência, lembranças de gentios, nativos ferozes.

As duras condições de vida, o tipo de educação aplicada à criação de filhos presentes à época da infância desse pai, mostram como surgiram certas inflexões em seu caráter.

Uma historiazinha ilustra a sofisticada pedagogia aplicada da época.

Seu pai, meu avô, tinha uma pequena fazenda no interior de Minas, distante uns 5 a 6 kilômetros de uma vila.
Numa ocasião manda o irmão mais velho, meu tio portanto, ir fazer algo na cidadezinha. O menino reclamou, não quiz ir.


O avô, rígido como provavelmente se era na época e por sua vez tendo sido criado também neste padrão, não teve dúvidas: aplicou logo uma surra bem dada no filho por não obedecer prontamente.

O menino sai pulando, rabo ardendo e vai cumprir a missão na cidadezinha. Chega lá, traumatizado, esqueceu o que tinha que fazer.

Volta pro sítio e conta. Avô aplica-lhe outra surra, manda de volta pra cidade e informa que todo dia, à tal hora, durante uma semana, vai levar uma coça para aprender. Vara de marmelo com hora marcada.

Assim era a vida, uma pequena faceta do mundo na infância do pai desse menino. Lida dura, duras lições, profundamente apreendidas.


Bonito, magro, um tanto narigudo, cabelos castanhos escuros, lisos e
espetados. Olhos de jataí.

Trabalhador incansável, observador perspicaz.
Amante de música, eternamente desafiando uma clarinete com seus chorinhos.
Demonstrava habilidades para o comércio, construção.
Gostava sempre de cultivar um bigodinho.

Ainda o vejo em uma cadeira
de barbeiro, espuma branca no rosto, olhos fechados, dormitando, sendo gentilmente esculpido pelo compadre soldado e afeitador.

Cabelos cortados, bem penteados com brilhantina, ainda moço vaidoso e galanteador, ajeitando suspensórios.
Obsessão por sapatos polidos. Uma existência de
sapatos engraxados, lição que incorporou da época em que fora militar no
exército.


Adorava criar passarinhos. Parte de seu ritual diário era limpar,
alimentar, trocar água das gaiolas. Estocava sempre seu alpiste, era sua
a beleza de cuidar e prover dos pequenos louvadores do céu.


Sua dedicação aos pintassilgos, canarinhos-da-terra e do-reino era retribuída: me lembro de vê-lo deixar abertas as portinhas das gaiolas. Os passarinhos saem em revoada em direção ao poente, passeiam o quanto querem por sobre nossa querida aldeia e horas depois um a um retornam ao lar.
Todos de volta ele fecha as portinhas para protegê-los dos gatos na noite.

Gostava de apanhar pimentas, prepará-las, deixar curtir. Adorava
pepinos que ele mesmo preparava no almoço.
Mantinha hábitos frugais e fumava
moderadamente.
Tinha uma forma predileta de fazer seu desjejum da manhã.
Preparava cedinho um perfumado café. Fritava ovos, bem mexidos, os
misturava com farinha de milho e pitadas de sal. Aquela mistura comia com prazer
enquanto sorvia goles do café quentinho.
A família acordava com aquele cheiro forte, gostoso no ar.
Apreciou isto toda uma vida, sua marca pessoal. Era o pai.

(continua)

sábado, 7 de novembro de 2009

FAZENDA PIXEL (Primeira Parte)

PORCOS-ESPINHO DE TODO O MUNDO, UNÍ-VOS !

Começo do ano, fim de um dia de trabalho, uma das maiores cidades do mundo. Época de verão, dias longos.

Estou num pequeno bairro no coração desta cidade. Geralmente se coloca o nome de vila para os bairros distantes nas periferias. Este porém, é o único pequeno bairro chamado de vila, na região central. A menos de dois quilômetros o marco zero de todas as distâncias, em frente à catedral.

Região de escritórios, faculdades, teatros, boates de pegação, pequenos apartamentos. Muitos estudantes, jovens casais, solteiros de todos os sexos e idades.

Passei as últimas horas trabalhando em minha seara na internet. Encerro as lides na Fazenda Pixel, fecho porteiras, deixo o cyber-café, ganho a calçada.

Dia acabando, mas a
tarde azul se rebela, insiste em não morrer. Rouba ao sol um carregamento de verão, injeta-se de uma luminosidade exótica. Embora os ponteiros dos relógios apontem a infração, explode em esplendor inesperado, quase artificial.

A noite se move tentando dominar o jogo. Provoca um vibrante céu azul marinho escandalosamente profano. Produz-se uma cor âmbar escandalosa nos edifícios, instalando no ar clima de palco.

Neste trecho urbano, microcosmo da megalópole, formigamento de noite se declara. Carros descem avenida, faróis acesos. Luzes penduradas sinalizando trânsito, brilham como enormes bolas natalinas; bares e farmácias se aboletam em seus mundinhos de neon. Árvores do parque em frente, perdem identidade, avançam como massas escuras sobre a fileira de prédios do lado oposto da rua.

Pessoas saem apressadas do trabalho, correm pelas calçadas. No trânsito, giroscópios coloridos da polícia, sirenes, buzinas. Acima do entra e sai nas lojas de comércio, sobre as copas negras das árvores, além dos edifícios, sobre a pressa da metrópole, a noite avança sufocando a tarde rebelde. Espremido entre o topo dos edifícios, o recorte escuro das árvores, um rasgo de céu, um grande camafeu de veludo azul profundo.

Instaurando, sendo emoldurado pela beleza e harmonia deste gigantesco broche, em seu ponto perfeito de equilíbrio proporcional, algo nunca presenciado: o brilhante engaste de marfim, enorme lua crescente devorando uma estrela assustada. Bem próximo à lua, quase em seu colo, uma fulgurante estrela amante se entregando.

Ícone vivo como uma bandeira nacional de uma mauritânia distante, escandalosamente belo, em tamanho natural.

Luz fantasmagórica do fim do dia, palco e cenário da vida urbana fervilhando ao redor, verde azulado dos sinaleiros, âmbar berrante no ambiente, tudo uma composição para o avistamento daquela magnificência que meus olhos nunca se cansarão de lembrar. Prendi, ou perdi ? o fôlego ao perceber aquele fenômeno. Tantalizado, queria dividir a experiência. Um evento de beleza única, raridade incomum, esfregando-se na cara de doze milhões de pessoas.


Por um átmo imaginei que veria jovens, homens, mulheres, parados, pacotes nas mãos, adorando, sorvendo aquele momento incrível, uma visão.

Qual nada, isto não pára. São Paulo continuava correndo. Uma experiência religiosa, uma mensagem clara, o grande telegrama poético do criador passara despercebido para as gentes.

A beleza, a grandeza do momento, importância da vida; terra, lua, estrêlas, galáxias, tudo ali solenemente presente numa prosaica esquina de um bairro central desta city.

A imagem gráfica de uma enorme lua resplandecente, devorando, amando, beijando uma enorme pérola viva. Lua e estrela tão próximas, só em desenho animado.

Guardei comigo a imagem, fui cuidar da vida. Dia seguinte, a notícia na TV: um fenônemo celeste de justaposição da Lua com Vênus ocorrera na noite anterior.

O espetáculo acontecerá novamente daqui a cinquenta e quatro anos !

Fim de semana seguinte viajei ao interior, à cidadezinha onde minha mulher estava. Comentei sobre a visagem, sua rara beleza. Ela também havia visto a lua voluptuosa.


Compartilhar este fato foi uma das últimas vivências agradáveis que tivemos. Isto foi um marco em nossas vidas. Os dois tínhamos visto o céu.

Era uma fase em que se tentava salvar a união, resgatar confiança, criar uma distensão, seguir juntos.


As coisas não vinham bem há um tempo. De minha parte, tentava salvar a união, tínhamos história. Durante mais de doze anos havíamos tido um relacionamento secreto, como amantes. Ela casada. Vivêramos uma vida dupla, como espiões de cinema. Isto tinha seu lado bom e incrustrado em seu interior havia também a semente de um aspecto mau, insuspeitado.

Tudo começara de uma forma inocente, impensada. Como estas coisas vão se desdobrando e suas implicações que levam a caminhos que nunca percorreríamos, são coisas interessantes de se observar.

Quando iniciamos nosso caso, meu casamento havia terminado não fazia muito tempo, apenas alguns meses. Antes porém de conhecer esta agora minha mulher, logo após ter me separado, já havia conhecido outra pessoa, pouco mais nova que eu, também recém saída de um casamento.

Esta, professora do grau médio em escola pública e em cursos preparatórios particulares para universidade, dava aulas de língua e literatura. Arrastava um doutorado em linguística na melhor universidade do país.
Uma baixinha muito sagaz, charmosa, escorregadia. Boa companhia, belas formas, tipo de pequena jóia, filé-mignon.
Embora madura, perfeita nos detalhes. Um corpinho sensual, pequeno violão, boca pequena. Cabelos fartos, negros e lisos, denotavam ascendência indígena, região amazônica.

Bastante instruída, articulada, fazia sexo razoável. Me atraia muito pelo brilho da inteligência, pelo humor, experiência e todo bouquet da mulher experiente. Pensava em tê-la como companheira para uma maturidade alegre, intensa. Vivências culturais, teatro, cinema, idéias, leituras, por muito anos.

Seu ex-marido, um ilustrador-cartunista, às voltas com computação gráfica em propaganda e cinema, parecia, era viciado em jogo. Já havia perdido muita coisa, por fim a própria família. Tinha dois filhos. Uma adolescente fluente em francês e um filho caçula, menino ainda, ratinho de cinema que sonhava ser crítico quando crescesse.

Eu me desconhecia no mundo sem casamento e traumatizado por ter perdido o meu, achei que iria encontrar meu porto seguro nesta relação. Por fim, uma enorme transferência emocional que estava me saindo muito bem. Ainda no início do meu caso com a indiazinha semiótica, acabei me enlevando com outra mulher totalmente oposta em muitos aspectos.

Por uns tempos caminhei por dois trilhos não paralelos.

Meus balões se inflavam pela pequena e charmosa professora. Parecia que eu tinha escapado do abismo da solidão, da perda de mim mesmo que me pesava o fim do casamento. E nas conversas e troca de informações e reconhecimentos, o destino me colocou armadilha.

Em clima de brincadeira, conversa inconsequente, exprimi uma injunção de cunho popular, um chiste homofóbico qualquer.
É claro que ninguém aqui é nazista-fascista gótico a ponto de manter uma postura medieval contra o homossexualismo e tudo mais.
Se respeita e pronto. Mas não se pode negar o histórico da questão na sociedade ocidental, no inconsciente coletivo.
Saber termos vivido todo um lento amadurecimento dos usos e costumes em nosso país, até chegar ao clima atual. O fundão psicossocial impregnado de preconceitos, felizmente cada vez mais caricaturais, contra gays.

Num momento de relaxamento, de liberdades politicamente incorretas, se faz alguma piada, ou no trânsito, se tasca um imbecíl de "seu veado, filho da puta", coisas que escapam no momento, de impulso, explosões lúdicas da alma coletiva.

Não me lembro exatamente de detalhes, circunstâncias, mas houve uma trombada nessa região, perto de uma curva onde a pessoa vira pra você e fala: "é mas eu tenho um irmão que é gay e minha írmã é homossexual". Aí fodeu.... ! Dificultam as coisas.

Antes disto eu já fora notificado de uma história meio pitoresca que minha parceira vivera. Estudante de linguística, professora, casada, mãe de filhos etc, havia se interessado pela produção poética de um artista popular de extração provincial, de uma região tida como um éden no Brasil.
Esta região famosa pela sua beleza geográfica e peculiaridade cultural, tem produzido talentos artísticos maravilhosos ao longo dos tempos. Continuava excretando sua dose endocrinológica, agora na figura de um camarada, cantor e compositor, de quem ela se encantou com a fortuna poética, em contato com as letras de suas músicas. Através de cartas e correspondências foi conhecendo a figura e foram se estreitando os laços entre o estudioso e sua presa, aliás objeto.

Longa história foi rolando, curiosidades, identificações, sentimentos afloraram e crescendo, urgiram. Gerou viagem para conhecer a realidade do bardo, por aí afora. E muita dedicação e estudo e certamente um agradável papo em beira de praia é preciso pra se conhecer de perto, bem próximo mesmo, todo o latejamento póetico desta gente bronzeada. O personagem, músico popular de raiz, mais ou menos isto, tinha um nome esquisito.

A persona artística deve ter surgido ao final da longa ditadura política no país. Havia então certa mania de artistas adotarem pseudônimos que exarassem as condições duras da vida do povo, nem que fosse por descuido. Era uma forma de protesto contra a situação política e econômica. Forçar o inusitado, romper limites. Não me lembro do pseudônimo, neste caso, mas era algo como Chulé, ou Sandália Havaiana Ensujada, ou Palafita ou um nome de lugar, estado, país que exprimisse miséria e desamparo, tipo Deus Me Livre, Puta Que Pariu, sei lá, coisa assim.

Ela me contava desta história peculiar, deste momento de liberdade que conhecera e da profunda ligação cultural, humana, existencial que com ele mantinha, sem grandes compromissos etc, etc. Estes etc são meio ruins de debulhar...

Nossas alegrias ainda se engatinhavam, eu certamente já tinha despejado toneladas de esperança na relação. Eis que o fulano vem lá do fim do mundo fazer uns shows na Megalópole. Por conta de fim de semana em que viajei, de melindre homofóbico fraterno reverso, a gente não se viu e a outra foi conferir a benga semiológica do artista popular.

Acordei na quarta-feira com forte ressaca emocional (não me ligou na segunda nem na terça) quando me dei conta de que estava na rua da amargura novamente. Senti mais forte ainda a tragédia que fôra a separação de meu primeiro casamento e mais pesadamente o fim desta esperança fugaz. Encontrar um porto seguro, uma pessoa maravilhosa.

Estava perdido novamente na selva. Não tinha conseguido salvar, pavimentar uma estrada de segurança e amor. Havia falhado na troca entre a mulher que perdera e uma outra, talvez melhor, que me manteria a salvo das mazelas da vida infeliz dos solitários separadões mortais.

Eu mantinha, na época, um escritório de telemarketing postal no terceiro pavimento de um modesto prédio de sete andares. Aqui nesta mesma região central onde agora cultivo minha seara de píxeis.
Alguns apartamentos deste predinho eram ocupados por pessoas que lá moravam .
Entre escritórios de despachantes, contabilidade, advogados, serviços, viviam no edifício uma argentina, cantora da noite, no primeiro andar. Fazia amor em horas inusitadas do dia enquanto dois andares acima a gente mourejava no escritório. Soluçava, chorava, num crescendo delicioso, gritante, colorindo a escala musical com os muitos tons do desejo, a voz sonora e melodiosamente escandalosa, intrigando e preocupando toda vizinhança. Parecia que ia morrer ou sair voando.

Alguns andares acima duas irmãs maduras e pacatas, antípodas astrais da portenha dividiam outro apartamento. Havia ainda um ou outro morador madurão e solitário, esporádico e um casal com uma criança no último andar.

Eu trabalhava muito, intensamente envolvido nos negócios; mal percebia as pessoas em volta. Subia e descia várias vezes ao dia pelo elevador. Superficialmente cumprimentava um usuário, um morador.

Havia este casal do último andar e de vez em quando acontecia de descermos juntos. Ele, um homem branco, de minha idade, faixa dos 40, na época, já bem calvo e uma expressão neutra de pessoa acomodada. Sempre bem arrumado, semblante cansado, cara de garçom, chef, crupiê, gente que trabalha na noite ou que não faz nada e vive entediado como um burocrata de serviço público.
Ela, morena mulata, bem mais nova que o marido, meio alta, muito magra, certa beleza selvagem. Traço étnico tribal forte tinha a testa enorme que avançava até quase o topo da cabeça. As proporções faciais bem equilibradas, belos olhos de cobra verde cinzentados.

O conjunto visual desta dona dava-lhe um apelo exótico. Ainda mais com o tipo de cabelo que ousava. Um autêntico black-power. Aquela montanha de pixaim erguido, armado, redondo, da dimensão de um pneu de caminhão, não, acho que exagerei: dimensão de um pneu de van, não!, menos ! do tamanho de uma melancia gigante, sim, parecia uma auréola queimada de um anjo mulato.
Bem, era um tipo de cabelo que não se via há bastante tempo na mídia.
Há quinze, vinte anos, fôra sinal de luta e rebeldia dos negros ao redor do mundo. Depois com os direitos civis sendo assimilados, aquela moda de exagero foi ficando esquecida, ultrapassada.

Chamava atenção aquela mulher esguia, bonita, com um cabelo espantoso. Parecia que talvez se tivesse incumbido de manter acesa a chama da luta pela igualdade dos povos. A última pessoa no mundo a usar o estilo militante black-power. Como se fosse uma visionária da retaguarda, a manter um sinal, um alerta até que a última liberdade pousasse no seio da raça negra.

E sempre acompanhando a mãe, uma garotinha também morena, cabelos encaracolados, de seus 4 a 5 anos, toda quietinha, cara redonda, bochechinhas destacadas, delicada, tímida e obediente.

Meros e formais cumprimentos ao sair e entrar em elevador, na portaria do prédio. Oi, oi, boa tarde, bom dia. Simpaticamente, mais nada.
Por vício adquirido da profissão de vendedor, eu tinha a mania de quebrar o gelo social com as pessoas. Elogiar, puxar conversa, tornar os pequenos momentos de elevador um rápido congraçamento. Ia então agradar a menininha, brincava, perguntava o nome, a idade, fazia algum comentário. Coisa ingênua, falta do que fazer durante o percurso do sobe-e-desce; política de boa vizinhança.

Nas conversas e respostas, pelo nome que tinham colocado na filha (típico de seriado enlatado americano) eu começava a perceber que era um tipo de gente bem simples, pouco formada, sem grandes pretensões na vida a não ser sobreviver na metrópole, consumir, ser consumido.
E desconfiava que o que havia embaixo daquela cabeleira da exótica mulata, no miolo daquela cabeça, o que havia lá, era alguma coisa bem rala. Quase que nenhum estudo, talvez um ciclo médio não concluído.
Família de migrantes rurais desembarcados nas capitais nas ondas de expropriação do campo. Operários de fábrica, serviços, mão de obra das indústrias manufatureiras.

Via aquele cabelão todo, black-power, e pensava se teria ligação com algum movimento, grupo. Perguntava pra ver o que saía daquela moita, aliás daquela montanha de cabelo. E percebia que nada havia por trás da fantasia. Ficara assim porque o cabelo dava muito trabalho. Ter que cortar, cuidar, pentear, pintar etc etc. Então deixava crescer meio livremente.

Nem tinha idéia do que quereria dizer aquele enorme penteado black-power, o sinal, manifesto mundial dos negros. Não tinha a dimensão histórica daquele símbolo como de resto de muito pouca coisa.

Na verdade fiquei um pouco assustado ao ver como dentro da sociedade havia pessoas que tinham a aparência de ser tão mais atuais, integradas às idéias e correntes do mundo cultural mas na verdade copiavam apenas a imagem, a embalagem. Viviam no invólucro.

E eu nunca convivera com alguém assim deste tipo. Oco no coco. Não sabia como funcionava, como percebiam o mundo, quais eram as razões de pessoas assim massificadas. Como viviam, agiam e reagiam os que não tinham pensamento próprio, individualidade formada. Pra mim era um mistério. Mas também não me interessava muito por saber. Tinha minhas idéias a respeito e pronto. Não me preocupava porque não via importância nisto. Você tem um percepção intelectual do esquema todo e detalhes não interessam muito.

Minha concepção de vida, meu mundo pessoal, sentimental era simples e transparente pra mim. Era montado de maneira a que, no topo de tudo o que havia de mais importante, no alto de minha escala de valores, estava o fato de que eu, após ter tido um casamento que ruíra, fracassara, fosse pela lei do destino, pela graça da vida, da beleza, de Deus, sei lá, encontrar outra mulher que amasse intensamente, reciprocramente, até mais do que a primeira.

Uma mulher que fosse mais delicada, mais fina, experiente, mais...tudo melhor que a primeira que havia perdido. Na verdade levei uns três anos para assimilar a perda do primeiro casamento; acordava chorando no meio da madrugada, essas coisas.

Bem, mas isto é outra história. Isto era o que eu esperava. Encontrar o grande amor ou um outro grande amor da minha vida.
Já tendo sido casado, experimentado e aprendido com a primeira união, pensei que facilmente encontraria alguém de um nível até melhor que o meu, talvez até mais inteligente. Que me fosse curar, dar a mão, nos apoiarmos, me levantar, ensinar a ser feliz, me amar de verdade e também fosse corresponder com todo meu ser.

O sexo nesta minha visão, era algo que viria de forma natural, completa, intensa, neste contexto maravilhoso que tinha certeza, iria acontecer.

Passava tempos sem me preocupar com isto, feridas da separação ainda em cicatrização. Jamais iria procurar sexo pelo sexo. Usar mulher como objeto. Isso não existia em meu horizonte.

Brincadeiras de elevador aqui, cumprimentos de corredor ali, começamos a ficar meio conhecidos, a morena dos olhos preciosos e eu.
Ela era meio rasa, mas eu também quase tinha morrido afogado em águas mais profundas e não via mal em conhecer e fazer amizade como uma moradora do prédio.
Até então eu não tinha menor intenção em relação a nada.

Estava se aproximando a data anual de festas, Natal. Época em que se entra em recesso, se viaja.

E um dia, após o expediente, apareceu um bilhetinho de baixo da minha porta. Trazia votos de felicidades pelas festividades e terminava mandando beijos.
Na primeira ocasião em que a encontrei sozinha no elevador, insinuei que eu queria cobrar ao vivo aqueles votos.
Não se perturbou. Sorriu e falou qualquer coisa não ofensiva. Numa próxima ocasião de elevador, perguntou se eu estaria no escritório dia tal, após o expediente. Sim.

Depois deixou um bilhetinho embaixo da porta confirmando a intenção. Ficamos de deixar a porta não trancada, após os funcionários terem ido embora.
Naquele dia minha expectativa cresceu muito. Finalmente a tarde chegou, o dia se encerrou, a equipe foi embora e não passei chave na porta.

E o anjo de pele morena e auréola queimada, desceu em meu andar. Timidamente fomos conversando e havia a sensação de que não tínhamos muito tempo para rodeios. Era uma fresta aberta nos roteiros diários.
Havia uma frisson, uma certa pressa, um impulso no ar.

Nem me lembro mais o teor das primeiras palavras. Alguma coisa meio rápida, reconhecimentos superficiais. Estava tudo bem, o marido tinha saído.
Não, a gente não queria se envolver. Medo de se machucar em romance, no amor.
Um elogio, um toque de pele, o desejo pulsando. Instinto começando a pegar fogo. Não é toda hora em que se tem pela frente esse luxo audacioso da lascívia, a mulher transpondo o sacrossanto portal do matrimônio.

Só desejo, Desejo. Começam toques, faces se roçando, aproximações meio inocentes. Bocas acabam se achando, se encontram, se beijam e mais e mais, longamente, demoradamente.
Se aninhar no pescoço, afundando, lambendo o colo, mordiscar.
Ahhh ! Abraços apertados, mais beijos gulosos, luxúria injetando sua urgência.
Quando se trata de algo proibido, tabu milenar, o instinto animal vem à galope.
Ali, frente à frente, desejo proibido de uma fêmea, a civilização perde os bons modos. Respiração acelera, eternidade pinicando, explodindo à flor da pele. A outra flor, carnívora, armando seu bote.
Boca passa a ser órgão exploratório. O nariz parte em circunavegações extensas, olfato resgatando vocações milenares em busca de exóticas e deliciosas especiarias. Cabelo enroladinho na nuca, boca lambendo, sentindo o contorno dos desejos, línguas egoístas em briga de intenso desamparo.
Aquele anjo magrelo, encarnado como anaconda morena me hipnotizava com seus olhos verdes, me envolvia, abocanhava, devorava minha alma, minha carne, com ossos, botina, chapéu.

Briga de cobra, de anjo, cavalo, tigreza, garras felinas. Zôo em confusão. Mergulho no abismo de rosas vermelhas, ardentes. Corpo, desejo, respiração, momento, território do efêmero intenso.

Busca do paraíso, o mergulho na lagoa do édem, látego, a queda, danação, surrender.
Da montanha se vê o vale da perdição, e pra lá se caminha celeremente. Canion das almas perdidas.
O avanço para o limiar da consciência da humanidade. Alguém sempre pula, um sempre é escalado.
O inconsciente coletivo te arrasta, te empurra, para o vórtex do desejo, o vale das bocas sequiosas. Eva Maçã você morde. E oferece a banana e tem fruta que você beija muito.
Lambe e cheira, sente o animal selvagem, sofrendo emaranhado na selva africana. Aquela coisa espessa e vai descendo e beija, chupa, lambuza e tira a casca e põe casca, belisca, arranha, geme e chora.
E se lamenta o tempo perdido. E mete os dentes na fruta da árvore do conhecimento. Abre os olhos e se descobre no bem e no mal.

No tatame duro, chão de escritório, no coração pulsante de uma megalópole, uma moreninha testuda, sem teorizações, sem estruturalismo nem dialética, transpõe o limiar da espécie. Salta uma janela para o desconhecido, onde o prazer de viver tem mais um sabor, o da ousadia.

Ninguém quer se apaixonar, já nos avisamos. A gente tem lá seus compromissos. Bem, é claro que não penso jamais em me apaixonar pelo menos não é aquilo que eu espero pra mim.

Tá. Mas quem foi casado por quase quinze anos, sempre teve sexo, dificilmente vai virar um ermitão anacoreta, um devoto contido, no auge da força masculina.
E foi tão gostoso, sem envolvimento emocional. Uma aventura carnal intensa e extraordinária.

Isto te deixa confiante, meio macho, reizinho no pedaço. Aliás, ficar com mulher dos outros faz um bem para o ego. Faz te sentir o bom. Levando harmonia aos lares, satisfazendo a volúpia de vidas anônimas, enterradas nos compromissos dos casamentos rotineiros, sem emoções.

Um marido traído deveria agradecer ao amante o colchão de satisfação, de tolerância, que se injeta na vida do casal. A mulher menos neurotizada etc etc.

O fato é que sair com uma mulher casada, toda aventura de se preparar, organizar cada encontro, as janelas de oportunidade que inesperadamente se abrem, a prontidão de aproveitá-las, tudo isto vai criando uma espécie de treinamento em vida dupla, de aventura, desafio.
Há que se ter criatividade para inventar roteiros longos, plausíveis e lá no meio, sob mil parenteses, o encontro, a pira ardente.

E por aí fui protelando aquele velho sonho de encontrar um grande e verdadeiro amor. O grande e verdadeiro encontro de almas. Mas que chato ! Larga mão disso ! Vamos curtir esta pequena aventura carnal, estes bons momentos de sexo e desejo, agradável incursão pelo território da carne. Ninguém vai morrer de fome espiritual por isto.

Melhor que ficar esperando a mulher ideal, é ter à mão uma zinha de carne e osso e vamos tocando o barco, caminhando com a humanidade.

Aos poucos se vai começando a perceber como funciona a cabeça de pessoas simples, do meio da multidão.

Na fase de nossos primeiros encontros, que no início eram meio raros, muito bem armados e com muita segurança, chegamos à época dos rituais sagrados da Igreja Católica, quando os fiéis desta religião revivem os passos da condenação e morte de seu fundador, o Cristo, Jesus.

Há então o dia da ordália, a véspera do mais sagrado, a chamada Quinta-Feira Santa. Pela tradição, em respeito ao sofrimento Dele, neste dia não se come carne.

Num encontro que tivemos então, uma semana antes, combinamos de nos encontrarmos na quinta-feira, na próxima semana. Ótimo, maravilha. Passados uns dias, quase chegando na data combinada, a figura me aparece à noite no escritório.
- Ah! Não vou poder vir aqui na Quinta.
- Por quê ?
- Ah! Não vai dar. Não pode... .
- Não entendi. Por que não pode ?
- Ah, é Quinta-Feira Santa....
- Mas o quê que tem a ver ?
- Ah ! não pode. É dia santo. É pecado na Quinta-Feira.
- Mas criatura, se você está traindo o marido, se você já está quebrando o sacramento do matrimônio, o que tem a ver agora se é quinta
- Não pode, Quinta-Feira Santa é dia sagrado. É pecado, não vai dar.

Bem, não teve jeito. O melhor foi se resignar e deixar para outro dia.

E assim, estes pequenos episódios, meio folclóricos, iam surgindo aqui e ali. E como não há uma convivência diária, não se sente o abismo de mundos que se tem pela frente.

No início eu me sentia bastante deslocado em relação ao ser humano que estava alí comigo. Não via a menor possibilidade de entendimento, de relacionamento. Então lidava com a situação de forma superficial, descuidada. Tudo fugia tão espatafurdiamente do meu ideal de mulher que nem me passava pela mente algum tipo de envolvimento.

Tinha dedicado meus mais profícuos anos e muito de minha energia numa formação intelectual acadêmica, que me permitisse ter uma mínima noção do mundo. Me achava meio importante por isto, pensava que sabia alguma coisa da vida, da dinâmica geral.
Esta pretensão praticamente tornava impossível qualquer envolvimento emocional com uma pessoa como a que se aninhava em meu peito, com aquele cabelão estranho.
Havia sim, um elemento de curiosidade que me prendia na história. Além da diferença cultural, havia um aspecto que pra mim era novidade. Eu nunca havia conhecido intimamente uma pessoa de cor negra. Nunca havia me deparado, no recôndito da alma, com uma pessoa que trouxesse no inconsciente uma herança de trezentos anos de escravidão, de opressão.
Pra mim eram uma ou duas sessões semanais de sexo. Só. Jamais me envolveria mas estava conhecendo de perto alguém de uma etnia onde tudo era novidade pra mim.

Aqueles encontros foram se repetindo e aos poucos, ao longo do tempo eu refletia sobre os fatos. Fui começando a ouvir a pessoa. Tentava entender seus motivos, ver o mundo com seus olhos. Pensava em como poderia passar noções de consciência política, visões de mundo mais articuladas.
Mas sem imposição de padrão exterior. Se eu aparecesse com uma "revelação" em seu mundo, qualquer que fosse, faria substituir uma opressão por outra.
Para conseguir que isto acontecesse, este trabalho orgânico, eu próprio deveria me libertar de meus modos, realizar em mim o que pudesse acontecer na pessoa. Permitir que brotasse em seu próprio ser uma individualidade, uma independência de análise do mundo e ser sincero em minha autocrítica.

Era um processo de uma vida inteira. Você não pode seguir um raciocínio intelectual, um método cartesiano com quem nunca teve acesso a método nenhum. Era uma coisa empírica, voltada pra cada situação. Eu tinha que manter uma postura quase felina, um estar consciente sem motivo, sem foco. Não poderia lançar bases à priori. Tratava-se de apenas viver a vida.

Mas havia ali um segredo, uma cumplicidade que também me obrigava a me desnudar um pouco sem me expor nem me mostrar fraco.

Mas não tinha como assumir postura professoral pois pra mim também toda a situação era inédita. Em um universo novo, coisas desconhecidas passam a fazer parte de seu cotidiano e não há como pensar sobre algo totalmente inédito.

A gente não vem pra vida com manual de instruções. A moça relatava que, por exemplo, tinha uma aflição, um mal que a fazia frequentar um psiquiatra de posto de saúde e que lá se abastecia de um medicamento proibido. Mas não conseguia verbalizar o que tinha, ou sentia, não sabia informar de qual patologia era tratada, o tipo de remédio (de uso restrito), não lembrava o nome, a marca. Um desamparo total.
Ou seja, até pra isto, tentar entender seu verdadeiro sentimento, o que a fazia sofrer, havia que adotar uma postura não epistemológica se não, não falaria sua língua.

Bem, apesar de tudo aquilo, do infinito desconforto, da falta de assunto, de pontes comuns, a distância de meu locus, ainda assim, covardemente eu ia me banhar nas águas rasas do conforto sexual.

As vezes me pegava comentando que o que interessava não era cérebro e do que importava eu estaria bem servido. Ninguém faz amor com o cinza encefálico e sim com o vermelho, essas coisas.

E tinha como álibi a experiência mal sucedida com uma doutoranda em linguística.
E o fato de que a vara-pau batia de dez a zero, com sua animalidade, o sexo culto da outra.
Outra que por sinal era viciada em café preto forte, sem açúcar. Meu Deus, imagina, você gostar de café sem açúcar ?! Que neurótica, credo !
Muitas vezes uma magnífica transa vale por cem anos de regência verbal. E lá continuava. Naquele ritual de amantes secretos, encontros roubados, fugidios.


As vezes me questionava se estava agindo corretamente. Se não deveria me guardar para um amor verdadeiro, elevado, um encontro de almas.
Consolava me dizendo que um homem não pode viver abrasado. Que estas vivências do baixo ventre não iriam me atrapalhar quando surgisse a mulher verdadeira. E com isto me jogava mais no trabalho, relegando a busca do verdadeiro amor.

Tinha resolvido uma ponta da equação, o sexo. A outra ponta, o dinheiro, estava em obras.
A dimensão do sentimento puro e verdadeiro, bem, aconteceria, quando tivesse que ser.

Depois de tudo transcorrido, olhando pelo retrovisor do tempo, se percebe que o componente fruto proibido, estar fazendo sexo em situação de risco, era responsável em boa parte pelo potente motor da excitação.

Com justiça se pode dizer que havia pouca arte, sedução, pouco talento sensual.
O acanhamento, a mecanização geralmente era a tônica dominante. Uma alma desmagnetizada, desindividualizada pela comunicação de massa, a falta de uma originalidade cultivada, não resulta numa independência, no desenvolvimento de uma arte de amar, no cultivar os prazeres sensuais.

Não estou com isto querendo dizer que não houvesse um extremo apego à carnalidade, de ambas as partes, uma entrega total, subserviente ao desejo. E tudo isto não se percebe na ocasião. Está bom, tá gostoso, tá quentinho, proibidão: vamos em frente !

Fator que precisa ser comentado em defesa da pobre alma, é que, da excitação que a vara-pau selvagem me despertava, além da beleza facial, da deliciosa elegância das magérrimas formas, da telúrica pele mulata africana, além da formosura e perfeição de uma das bundas mais lindas que beijei, a atitude única de se arriscar e romper com os grilhões de um casamento que não a fazia completamente feliz.

Esta coragem, esta audácia, pairava no ar como um mistério.
Como ? eu me perguntava, uma pessoa que não possuía grandes elaborações intelectuais conseguia tomar uma atitude assim ? Esta ousadia, isto era um aditivo potente no combustível que me incendiava.

Muitos foram os momentos bons, as alegrias e prazeres de se caminhar juntos. Mas a dor que me reservava o final, ah ! Soubesse, jamais teria pisado neste shangri-lá.

Entre os muitos prazeres insuperáveis que você tem quando sai com uma mulher casada, é a de ser o titular de seus desejos.
Sentí-la gemendo e chorando sob seu cetro te confere uma agradável sensação de importância.

Íamos combinando nossos encontros, nossas escapadas. Aos poucos eu ouvia aquele outro mundo, outro ser.

Isto leva tempo, laços lentamente se formando. Não se passa a gostar de uma pessoa assim de uma hora pra outra.

Mas o caminho do sexo vai subindo para o coração. Não que não houvesse coisas absurdas, situações de risco, de perigo.

Interessante é que, muitas vezes,o ridículo, o espatafúrdio improvável é que acabam facilitando o nascimento da compaixão, do afeto, do sentimento.

Houve uma época em que por fortes reveses nos negócios, acabei levando pequena mudança de descasado ao escritório, já sem funcionários; fiquei morando no próprio local de trabalho.

Já tínha então a cama alí mesmo e as visitas íntimas passavam a ocorrer nas noites, após o marido sair para o trabalho ou inusitadamente, nas primeiras horas da manhã.

Maridão maitre, trabalhando em bares e casas elegantes, servindo a elite, mulher fazendo serão.

Uma fase das mais agradáveis.

Estabelecia-se uma rotina de risco e aventura num micro-cosmo.

Marido sai à noite para o trabalho, mulher despachava a filha pra cama, prédio já vazio. Descia pé-ante-pé até o terceiro.

E tome bandeira do divino, Mistérios Gozosos da Divina Increnca.

Eis que uma noite a menina acorda querendo alguma coisa e a mãe não está. Preocupada, liga pro papi no trabalho, dizendo estar sozinha em casa. Papai pega um taxi e vem pra casa. Porteiro do prédio não viu ninguém sair. A mãe, começando a função no Teatro da Entrega, ouve a porta do prédio se abrindo e num rasgo de intuição pressente a confusão e sobe voando até casa.

Tempo de entrar, respirar, relaxar, marido sai do elevador." - Que que houve ? A menina me ligou, você sumiu ? " -"Que isso ? Tava na escada, fumando... ".

Imagina se não tivesse tido a intuição e subido correndo. O marido chegaria, iria ao apartamento, não a acharia. Perguntaria para o porteiro. Não ninguém saiu. Volta pro apartamento. Aí ? Chamaria a polícia ? Ela apareceria no meio das escadas, subindo de volta ? Ficaria confusa a situação.

Capítulo à parte merecem as aventuras das matinas. Morando no escritório, um minúsculo apartamento, outra janela abriu-se para nossas lides: as manhãs.
O marido voltava sempre de madrugada, final da noite. Colaborava com a matança, o fato de que geralmente após terminado seu trabalho, saía a visitar amigos em outras casas noturnas e ficava socializando, copos e botelhas, até altas horas.

Quando voltava, só queria merecidamente dormir até o meio do dia.
A abnegada mamã leva a filhinha para o turno matinal da escola infantil.
Pontual lá deixava a menininha e voltava direto pra casa.
Como toda mulher correta sua vida era inteiramente dedicada ao lar. Só que o prédio ainda não tinha acordado. Os frequentadores dos escritórios iam chegar aos poucos, bem mais tarde. Maridão roncando no sétimo. Deliciosamente a dona passava no terceiro andar. Porta sem chave, entra sem bater. Dá um salto sobre mim. E tome crueldade.

As vezes, de maldade, sem falar nada, nem bom dia nem nada, chega, vai chupando meu dedão e sobe, sobe, aquela cachoeira de desejo.

Outras visões do Kama Sutra: aquela bela morena deitada ao meu lado. Num golpe cavalgo seu peito e subindo de joelhos me aproximo de sua face. Com minha monumental jeba escarlate, golpeio suas delicadas naturais sobrancelhas, sua grande testa, aplicando-lhe uma surra de vara-doce. Massageio seus olhos, açoito sua face canelada, escarafuncho suas orelhas, imprimo o silêncio em sua vasta boca vermelha, arisca e gulosa, botejando meu látego pujante.

Minha proverbial estrovenga, mítica tromba, laica, louca, zoológica. Dragão sem patas, de feiura ancestral soltando fogo pelas ventas. Aquele bocagulosa, pomba gira tresloucada, enorme cubano, brasa adentro.

Beleza acima do bem e do mal. O belo despertando numa cena íntima, sem pudor, sem ternura. A vertigem de uma maria padilha, olhando envesgada, boca lotada, ridícula cena bisonha, rasa, prosaica, querendo apagar a enorme brasa.

O rude, primitivo mangalho, placas, veias saltadas, escamas, protuberâncias, milhões de vasos injetados, golpeando a bela cútis morena, princesa núbia de olhos cerrados, escrava africana pelo senhor açoitada, alfabetizanda da única língua que interessa, o amor.

Uma noite minha amada saiu com marido e foram a um barzinho encontrar amigos, beber, espairecer. Fui dormir. Nada fora combinado.
Alta madrugada, eis que alguém entra no meu aposento e me usa descaradamente.
Chegaram da farra. Subiu com o marido, o porcão cai na cama e encapota. A mulher sempre mais resistente que o homem (ou mais esperta, mas ainda assim completamente bêbada) desce e vem me imolar no terceiro andar.
É um tipo de coisa que me deixou um pouco preocupado. Fui usado meio que sem consulta, sem conversa. Bem, era uma boa causa. Não vamos ser "ranz".


A Amiga

Há coisas que não se faz e depois temos uma vida para curtir um leve arrependimento.
Uma amiga, que há tempos não se viam. Casada, ela e marido também da área de serviços em bares e restaurantes. Clara, descendente de italianos ou alemães, nova, bonita mas nada de extraordinário. Fim do dia as duas se encontram e vão bebericar em barzinho.
Ao final fui chamado para levá-las pra casa.
Nos encontramos, as duas já em estado bem adiante do sóbrio. Muito alegres, cheias de mãos e safadezas. Beijinhos e ois e mãos no pescoço, no joelhos, muitos toques e proximidades. Esfuziante celebração de amizade e tudo o que um homem quer.

O sexo faiscando no ar.

Amargamente me arrependo. Ao invés de entrar no clima e corresponder aos tatos e contatos, me travei numa postura séria. Só um mínimo empurrão e teríamos brincado os três, celebrado uma amizade mais íntima e deliciosa.
Teria feito muito mais pela vida de duas amigas e seus respectivos casamentos, tivéssemos ido fazer amor sem frescura . Porque agi assim ? Não sei. Sinceramente não sei.
Talvez marcasse ponto agir como macho responsável, no contexto. Talvez para garantir o naco de carne já em meu poder. Sei lá. Chance perdida. Arrependimento. Paciência.


Anos para se ir conhecendo um pouco uma estrutura-pessoa. Havia uma tensão facial suave de simpatia, seu sorriso social bem postado, acima de pequenos desentendimentos.
Um treino foi se desenvolvendo com o tempo. Em relação ao fato de irmos mantendo o caso amoroso.
Que a verdade de si interessa mais do que a conveniência de terceiros. Se o que faço me é bom, não interessa a rotulagem social que a isto se dá. A experiência em primeira mão das verdades da vida.

E fomos criando um conhecimento mútuo sobre aspectos práticos da dupla.
Aos poucos foi se distanciando do marido. Eu aumentava de importância.

Descubro que ninguém tem culpa de não ter podido estudar.
Não ter frequentado uma faculdade, um curso superior, uma etapa mais sofisticada de cultura, não deixa ninguém inferior. A pessoa é o que é. Lógico que há uma lacuna abissal que tem-se que subsumir, relevar, passar rápido adiante.

Há "enes" furos no entendimento, na percepção, na ação. E parece que a partir de um ponto, a pessoa que não teve como avançar na formação perde o interesse em buscar aquela complementação ou passa a se virar, a viver bem sem aquilo.
Se acomoda na situação e toca o barco.Via na minha parceira que em seu núcleo familiar, social, havia um endeusamento, uma mitologia que girava em torno de que ser rico ou estar bem na vida, é sempre frequentar bares, boates.
Poder beber e comemorar com amigos, conhecer gentes, sempre ao redor de copos e afins. Isto sim é o máximo.
Ora, para começar a ser elite, um primeiro passo é beber. Beber sempre. Fácil.
Ser rico e ser bem de vida é frequentar bares e boates. Sair pra beber. Tudo girando ao redor do copo. O beber como um símbolo da alegria de viver. Beber nos congraçamentos familiares, festejar e não ser um chato na vida.

Talvez isto tenha sido influência de marido, desde sempre desta profissão de servir em bares e restaurantes e tendo sempre olhado o mundo por este ângulo.

Quem está sendo servido, nem que seja com álcool, sempre se porta como da mais alta corte.
Esta segunda natureza, este considerar o beber como algo superior, parece tão arraigado na mentalidade de uma determinada classe como certos aspectos do cristianismo.
Não se discute. Se aceita. São dogmas e acabou. Contra todas as evidências. Dogmas.

Muitas noites e manhãs depois eis que a parceira fica grávida do marido. Segunda filha.

Resolvem ir tentar a vida na capital do país onde ele já tinha parentes. Levamos a situação até onde deu. Mulher grávida pulando a cerca, ai meus pecados... .
Finalmente se mudam pra capital.

A investida não funcionou e de novo, megacity.
Volto a vê-la quase um ano depois de terem partido, filha nova e tudo. Uma reunião após um tempo de separação é uma experiência inesquecível para um casal de amantes.
O corpo cobra as saudades, carne sedenta por paixões viscerais. Fogueira.

A primeira vez que nos vimos, início de um dia de semana, estaciono numa travessinha isolada de uma movimentada artéria de centro financeiro. Eterna abnegada: como se tornar indispensável na vida de um homem.

Nesta volta, vão residir numa cidade vizinha, quinze kilômetros do centro onde estávamos.

Principia trabalhar em casa noturna, jogos eletrônicos de azar. E aí tem-se nova fase de encontros, de roteiros malucos. Saídas de madrugada para levá-la do trabalho para periferia e toda uma mudança de rítmos.

A era do hotelzinho barato no caminho. E vamos lá bater ponto. Os mais assíduos fregueses da casa. O corpo de um vai se amoldando ao do outro, querendo mais espaço em sua alma.

O surgimento de um horizonte sonhado. Um dia, a possibilidade de sair deste tipo de vida de merda. De não ter que se separar depois de fazer amor. Estivéssemos juntos, faríamos uma comidinha. Teríamos um cachorrinho, Viver juntos. Com "partileira" e tudo.
E não ter que logo vestir a roupa, retocar o cabelo, se arrumar e ir pra casa, antes que estoure problema.
E isto vira um mote recorrente. Volta e meia se resvala neste assunto, nesta possibilidade. Mas nada concreto ainda. Nada forçado. Acaba ficando uma espécie de sinal no céu, um eldorado no horizonte.
Um dia, quem sabe ?


Tinha saído mais cedo. Eu a pego no trabalho, levá-la pra casa. Cupido no ar, antes porém, hotel amarelo. Na ída, carinho, intimidade. Geralmente pousa a mão em minha perna e aos poucos mapeia a região à caça de tesouro. Bem, o terreno não é tão acidentado assim.
Mas algo chama a atenção de sua boca cereja. E já estou infringindo todas as regras do batalhão de trânsito, no sétimo andar da pista.

Enquanto mudo as marchas do meu fusquinha pela longa e mal iluminada Chico Morato Avenue, com a mão esquerda ela sincroniza meu câmbio com as velocidades, torques do desejo.
Passando pela igrejinha do lado direito, lança um olhar ao Cristo Pendurado. Sem abandonar minha taconha, com a direita se benze, reverendo sinal da cruz.

Muitas vezes quando por algum motivo não podíamos ficar no hotel, já na subida do morro pra sua casa, saindo da parte mais movimentada do bairro, suplicava por carinho mais íntimo.

Bastava um pedidinho. Meigamente um soluço muxôxo e doce, se aplicava ao trabalho de me encher de prazer.

A fragrância do perfume que usava, as lembranças, sua presença ficaram em minha vida como restos de uma festa.
Bolo, farelos espalhados pela mesa, pela pia, pelo chão. Tenho que remover os pedaços maiores e limpar tudo meticulosamente com uma escova.


Remover cada partícula desta dolorosa saudade. Este amor carnal que foi entrando, transformando meu sentir, meu ver, o viver. Agora tem que ser desmontado, escrutinado, passado a limpo, removido cada fragmento.

O mergulho no infinito túnel que se abria quando a abraçava, no perfume suavemente canelado com toques de flores da savana ao calor da brisa vespertina, de seu pescoço, seu colo.

O doce pedaço de carne negra sedenta, bom de mergulhar, sonho eterno de uma áfrica amada, berço do inconsciente. Nunca um perfume e seu vocativo se casou tanto com uma pele de pêssego e bronze.
Doce viagem, um chiclete dos desejos, dos sentidos.
Voluptuosa deusa do sexo e do prazer, vaca voadora, piranha das galáxias. Doloroso balanço este... .


A cada temporada, um hotel. Paulista Garden, Lisboa, Pelourinho.

Presentear com lingeries finas, calcinhas elegantemente essenciais. Adornar aquele corpo negro maravilhoso. Sutiãs ricamente trabalhados, levantando aqueles peitos precocemente cansados, ainda belos. Testemunhos de sua vivência de mãe mas também triste mostra de um exaurimento espiritual, da falta de sonhos que as duras realidades da vida impõe aos mais simples, mini-tragédia étnica, psicológica.

Nossos cunilingui, como um abridor de garrafas, ligações diretas com a felicidade.
Num stompt brindava-se o céu.

Eu vestia tão bem aquela imunologia ! Saía a viver com uma máscara rosa-encarnada enfiada na cara. Um chapéu encarapinhado, um sorriso de vampiro saciado, vacinado contratodo tipo de apequenamento.

Não precisava de jogging, caminhada, academia, nada de aborrecimentos. Batia em meu peito um coração rosa-encarnado. Sete centímetros de massa precipitada, buraco negro do universo. Atrai tudo ao redor, até os raios de luz. Quanto mais os sentimentos de um desavisado. Ah ! Os óios da cobra verde, hoje foi que arreparei... .

Os anos vão se passando, a presença se solidificando. Já não mais garçonete em jogos eletrônicos de azar, agora hostess de clube de danças.

Resolve que queria melhorar de vida, aprender alguma profissão, escalar um patamar profissional.
E temos então cursos matutinos de cabeleireira. E temporada de novos horários e hotéis.
Em seguida, outros ambientes de trabalho. Vai trabalhar numa importadora de produtos de cosmética. E tem sua época de divulgadora, visitando salões de beleza, demonstrações das tinturas e químicas que vinham da Itália.

Deste país vinham os produtos e especialistasque treinavam aqui os funcionários que iriam divulgá-los. Da bota também um técnico especialista em jogar charme sobre desprevenidas aprendizes. Um madurão cheio de olhos e garras sobre as pobres nativas e seus desprevenidos amantes.

Simpática mulata de olhos quase verdes, magra, bonita, elegante, trinta e tantos anos, conhece senhor italiano, rodado porém inteiro, beirando os 70, provavelmente do tipo elegantemente vestido, bem apessoado, simpático, bon-vivant.

Perfil ideal para minha cabrochinha, que nem minha direito era e que tinha como traço característico preferir e ver beleza em homens maduros.

Se encantou do vovô lobo e começou-se uma fase em que tive que exercer as artes do despreendimento e tolerância.
Começa falar da pessoa e se vê que não se muda muito de assunto. Hummmm.
Fui sendo paciente e sábio, torcendo para aquela história, semana de treinamento passar logo.

Parece que as investidas não foram inúteis. Nada muito sério. Nesta altura quem poderia avaliar o que era sério ou não ? Pelo menos na primeira temporada foram do platônico aos beijos com desenvoltura de adolescentes.

O que se pode fazer contra a paixão? Você no papel de amante, de viração sexual, vai falar o quê ?

Isto, terem ficado nos beijos apenas, ao que pude ser informado pela sua judicícia.
Não colocaria mão no fogo. Nesta altura eu um amante que traía o marido e que poderia ser traído por um forastieri.

Paciência, me aconselhava. Todo mundo está sujeito aos vírus das paixões repentinas. Minha sobrevivência era não permitir que se criasse um clima envenenado, não fechar o tempo. Deixava a coisa fluir para um patamar de liberdades relativas. Comentar, rir, se portar meio como coleguinha.

Felizmente Dom Juan Lorenzo volta pro país de origem. As ameaças continuam. Fala-se de estágio direto nos laboratórios, na Itália. E tome promessas, fantasias, telefonemas internacionais. E lá se vai longa temporada de sonhos, preparações, compra de dicionários, de livros básicos de italiano, eu meio que de bobo neste segura-vela interoceânico.

Aprendendo o quanto doi se envolver por sexo com uma zinha que também corre o direito de conhecer e se envolver ou não, com quem quiser.


Se éramos amantes, se tínhamos este paralelismo, não havia possibilidade de pressão, de pugnar por exclusividade. Eu tinha que ter certo fair-play e permitir algumas liberdades. Ainda não tinha lá tanto vínculo emocional que me deixasse enfurecido mas ao mesmo tempo era um jogo típico de fritura. A chapa me esquentava. Mas, cachorramente, não largava o cinismo e a me acovardar, as poucas camadas de envolvimento.

Uma situação porco-espinho. Largar não poderia, me atracar, sofreria. Vai-se administrando.
E a situação chega ao paroxismo com a segunda visita dos treinadores.

Daqui a dois meses fulano... . Daqui a trinta dias fulano etc etc.
Daqui a... . Dia tal fulano etc etc. Já se prepara o terreno, sou colocado devidamente de lado.

Hoje tem treinamento, amanhã se vai para não sei onde, dia seguinte tem isto, depois mais aquilo.

Foi amargo engolir a temporada. Cheguei a perder a cabeça. Liguei num rompante em horário noturno, já se teriam acabado as atividades de trabalho.
Ouço ambiente de bar e calçada. Hum, como dói, que saco !... .

Passado o calvário, temporada finda, pensei fosse encontrar uma parceira mudada pelo conhecimento carnal de um novo amante, insuflada na vaidade pelo novo (embora um tanto gasto - mas quem vê charme não vê defeito em data de nascimento), italian lover. E o que percebo ? Nada houvera. Nada houve ? Não rolou. Não houve.

Não deu. Sei lá. E o que sei ? Nada. Muito pouco. Não me revela nada. Acabou, episódio encerrado. Não abriu detalhe, isto, aquilo. Se foram para um hotel, se transaram, se não. Se foi bom, se não foi. Deu a entender uma decepção, sem detalhes.

Nunca soltou a tramela, nunca entrou em detalhes sobre a razão da decepção. Talvez o Don Juan a tenha subestimado, usado e cuspido. Vá lá saber. Manteve seu castro. Foi-se o galã. Ficou-me uma certeza: aquela mulher aprendera que era dona de si mesma. Quando e se, seu coração batesse por alguém, não faria ouvidos moucos.

Retomamos a vidinha de pulação aqui e ali. Um dia sim, outro não, outro sim, outro sim e outros não e não; Jesus não pode aqui, Jesus permite alí.

No horizonte sonhos vão tomando forma e no dia-a-dia providências sendo ataviadas.

A idéia de se criar uma vida juntos, a busca por alugar uma casa, a entrada de pedido de separação do marido. Coisas foram acontecendo e aos poucos o destino mostrando suas passagens.

Papai e Mamãe haviam se encantado. Tínhamos a casa deles lá no interior, grande, confortável. Viu-se que poderíamos instalar a parceira lá. E seria interessante porque teríamos alguém ali, presente, a administrar uns aluguéis do espólio.

(continua na Segunda Parte)