O pai me ensinando desaparecer, controlar movimentos, respiração, falar o indispensável quase inaudível. Ficar invisível.
A integração com a selva. Observar sem ser notado.
Cuidado com o perigo, atenção desperta pelo imprevisto real. Pressentir cobras, evitar tarântulas, saber escorpiões. Vigia intensiva e suave. Esperando sem pressa, sem objetividade. Não pisar formigueiros, evitar pousar mão em trilhas de saúvas. Nada de gestos bruscos, rasgados. Paciência, disciplina com exigências do corpo, fome, sêde. Domínio de dores, desconforto, reações sutis à uma bárbara ferroada de borrachudo. Transmutar-se num ser da floresta.
Aos poucos a vida da selva vai retomando sua normalidade, nossa presença se dissimula. Em algum momento aparece a caça. Ouví-la, ver em qual árvore, em que galho está. Localizá-la sem se afobar, melhor visão, calma, paciência, precisão. Gatilho armado, posição correta arma no ombro, postura do corpo, olho na mira, esquecer dor no braço. Tudo controlado. Momento certo. Alegria de caçar.
Aquele que eu um dia eu iria esquecer - não sabia seu tamanho - me ensinava toda uma universalidade de vida. Uma relação dinâmica com os materiais, formas, técnicas.
Sobre meus ombros, continuidade da espécie. Adaptabilidade, domínio das condições adversas da vida logrado pela raça humana alí representada, naquele tempo, época, lugar.
Ensinava fazer arapucas, construir gaiolas de taquara, alçapões, armadilhas para pegar pássaros, coelhos, peixes. Manobrar com ferramentas da oficina, marcenaria, alvenaria, da alfaiataria, lavanderia, borracharia, fecularia, maçonaria, Dito Faria, Lau Faria; habilidades precisas em uma cidadezinha isolada do mundo.
Desde consertar um motor de caminhão à época adequada para plantio de tomate , estaqueamento, veneno, tudo tinha que saber um homem mais a coragem.
Ensinava-me desenhar e construir carretilhas. Recortar papel de seda, preparar varetas de bambu, fazer rabiolas, montar pipas, erguê-las ao céu.
Me ensinou escarvar monjolinhos na madeira para brincar na bica, das mais idílicas lembranças de minha infância. Um moto-perpétuo beijando a natureza em troca de um fiozinho de água.
Escolher, cortar forquilhas, fazer um bom estilingue certeiro com pedaço de couro de sapato velho e borracha de câmara de ar de bicicleta.
Descamar, limpar, fritar um peixe sequinho empanado em farinha de mandioca.
Depenar, abrir, preparar um passarinho.
Ensinava chutar bola, driblar, dar chapéu. Me treinava na elegante arte de ser goleiro.
Fazer canteiros, plantar legumes, apreciar alface, cultivar pepinos (comê-los tenros com pitadinha de sal), beringelas e rabanetes.
Na verdade, você anda na rabeira de um pai, um dia na sua vida é uma vida na sua alma.
Um momento de estar juntos, uma lembrança de uma figura que você amou mas que era mais que amor, é o Pai.
Um pai não fica se derretendo com o filho. Mas cada palavra, doce ou dura, um puxão de odrelha ou uma pequena atenção, uma garrafa de café passada pra você dar um gole, equivale uma lição, uma matéria aprendida.
Um gesto, uma tarde, ficam na eternidade.
No céu infindo das emoções que alimentam o Ser para todo sempre.
Me ensinou apanhar agrião, bem na nascente gelada do riacho, na grota da montanha. Fazer maços, encher um cesto, oferecendo nas casas da cidade.
Sentir o mais gostoso sabor dos picolés de leite com groselha, comprados na sorveteria da Dona Ditinha, com dinheiro ganho por próprio esforço.
Me pega no colo, acostuma com as letras, escrita. Também me bate de vez em quando com uma varinha de marmelo. Me corrige de algo que eu não sabia e até hoje não sei o que era.
Talvez achasse o filho muito mimado para sobreviver naquelas paragens, quisesse domá-lo ao inverso. Adaptar àquele mundo rude. Paciência.
Ensina negociar com o mundo. Foto antiga tirada em visita à capital religiosa de nossa terra, vejo o pai, o menino, a bela jovem mãe.
Lá estava, calças curtas, um pé calçado, o outro na calçadas quentes. Devia ter dado uma topada, descascado o dedão.
Como um espelho de minha vida, até hoje a lembrança imortalizada na antiga imagem marcou minha infância, minha vida.
Sentia vergonha de estar de pé descalço no chão e ao mesmo tempo era parte do meu viver. A força de meu pai ao lado não me permitia vacilar. Como eu tinha que enfrentar aquilo, fazia que o fato perdesse importância. Existia e me fazia não existir ao mesmo tempo. Não era eu quem estava ridiculamente com um pé no chão. Aprendia a me dominar. A figura do pai me deixava em pé.
Tinha um pai, não sabia, não podia saber; ele ainda não podia existir em minha mente em todo seu tamanho. Minha pequena mão segurava a sua mas minha compreensão de menino não o alcançava em todas suas dimensões. Como demora pra se conhecer o próprio pai !
Toda uma vida o acompanhei a lidar com engenhocas, máquinas, motores, carros velhos, sina de uma existência ! Desafiando, mexendo, desmontando, aprendendo.
Uma temporada papai enfrentou desafio de fazer lavoura de tomate, esperança de ganhar bom dinheiro. E lá vai preparar terreno, limpar, arar, eirar. Centenas de estacas de taquara, amarrios e cuidados sem fim. Por fim a muita chuva, a mela. Lavoura, nunca mais !
Um pai dono de armazém, secos e molhados, antes de chegar à cidade a primeira geladeira.
Para servir aos clientes uma cerveja mais fria, estocava as garrafas no porão, subsolo do estabelecimento. Repousadas na terra fria, ganhavam sabor, fresquinhas, agradáveis à freguesia.
Alguém pedia uma cerveja, lá ia o homem abrir o alçapão, descer uma escadinha e retirar a garrafa do solo, no fundo do porão.
Num mostruário de vidro, prateleiras de doces e guloseimas. Meninos pobres, meio largados, me abordavam na rua e diziam que eu era um garoto legal, um menino bonzinho. Que havia um monte de doces lá no armazém e que eles eram amigos meus e que eu podia ir lá e pegar tais e tais doces. E assim eu fiz algumas vezes. Surrupiava e levava aos meninos. Papai percebeu. Disse que de forma alguma, não podia fazer aquilo. Os doces eram pra vender e se eu desse doces para meninos da cidade ele não ia poder mais ter o comércio.
Vem o garoto e pede mais doce. Eu disse que não, não pode.
Era época de festas juninas e atrás da igreja havia uma fogueira de São Joaõ.
Fui até lá e junto com os meninos ficava de cócoras ao redor da fogueira.
O tal do garoto sem doce quiz me punir por cortar o fornecimento do produto. Encheu a mão de cinzas e tascou na minha cara. Volto correndo e chorando pra casa, pro armazém.
Falei que tinha sido o Savinho, me jogou cinza na cara porque não dei mais doces pra ele.
Meu pai me pega pela mão e me leva até a fogueira. Quem foi que jogou cinza em você ? - Foi ele.
Foi tanta força moral, ira sagrada tão contundente que o episódio marcou a era do pai meu herói dourado. Tinha alguém que efetivamente me protegia de pessoas traiçoeiras. Nada de ruim iria me acontecer. Os maldosos temiam sua força, meu mundo era um país soberano.
Era uma tônica em sua vida inovar. Inventar algo novo, agradar clientes, uma oportunidade de ganhar um dinheirinho a mais. Às voltas com uma moenda de cana movida a gasolina, preparando garapa, incrementando seu comércio. Ia até as roças, comprava os pés de cana, lotava o jipe. Depois os descasca, lava e tem a novidade para oferecer aos fiéis clientes. Aos domingos após a missa das dez, seu comércio lotava de sitiantes, chacareiros, clientes humilíssimos porém fiéis e honestos. Faziam as compras da semana, no mais das vezes na caderneta, no fiado. Na conta já incluída uma viagem de jipe até ao sítio, levar o cliente, a mulher, as compras.
Sempre ocoupado, fazendo algo de útil, organizando o negócio, trazendo novidades, incrementado o comércio.
Sim, era um guerreiro mas também por um tempo sua vida tremeu diante do abismo. Por um período também eu não vi futuro para minha existência. Foi uma das poucas vezes em que o vi chorando.
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