Levava o mesmo preparado e uma garrafa de café quando pescávamos nos rios das redondezas.
Pegávamos o velho jipe cinza 51, descíamos chacoalhando até alguma região rural onde houvesse um rio de várzea, curvas preguiçosas.
Procurava uma sombra de árvore na beira da estrada para deixar o carro e marchávamos até as margens.
Me ensinava as artes da pesca. Preparar um caniço. Escolher uma vara no bambuzal, cortar, bezuntar, deixar ao sol para curtir.
O jeito certo de amarrar a linha de pesca, escolher o anzol, tamanho adequado para cada tipo de peixe em vista, tipo de nó adequado para prender bem o anzol à linha à vara.
Onde achar e como armazenar isca.
Reconhecer os melhores poços de peixes. Cevar. Lançar anzol na água sem fazer barulho, silenciosamente, sem espantá-los.
Todo ritual de paciente tranquilidade, calma, silêncio, rigorosamente observado. A gentil convivência com borrachudos, insetos e ferroadores do entorno.
Mais que o peixe em si, tirá-lo ou não da água, importante aprender esperar, deixar acontecer o beliscão. Se afobar tirando a isca da água cada momento, ver se ainda está lá. Ficar puxando a vara ao primeiro beliscão nem se quedar desatento, deixando o peixe comer toda a isca, não.
Mais que pescando estávamos treinando a têmpera para vida. Se não desse peixe, se o dia não rendesse, aliás, o que mais soía, paciência. Pescássemos alguns, que delícia, à noite teríamos lambarís empanados na farinha de mandioca, bem sequinhos, no jantar em casa.
O mesmo pai ensinava noções de sobrevivência na selva, na vida.
Quando ao campo, me apresentava os nomes das árvores, dos matos, remédios, frutinhas. Filho, isto aqui é piúva, olha como verga, enverga, não quebra. Os índios usavam pra fazer arco. Para flexas eles usavam.... .
Mostrando os segredos da mata, do mundo rural, milhares de anos de interação de homem com natureza, conhecimento de seus tempos e rítmos, como usá-la para a vida.
Deu-me uma espingardinha cartucheira, me ensinava a cuidar dela. Desmontar peça por peça, limpar, engraxar, remontar. Municiar, atirar. Mirar sem tremer. Acertar o alvo.
Chegou então o dia de caçar. Preparamos os apetrechos, os pios, apitos especiais que copiavam sons de diferentes pássaros; papai tinha vários, para jacu, para inhambu, juriti, sabiá, shopping ibirapuera, campo belo e outros.
Com os pios o caçador embrenhado no mato, imitando os pássaros, dialogando com eles, os traz para perto, conforme sua habilidade.
Relatavam-se histórias de exímios, habilidosíssimos caçadores e pescadores, como o Tio Dito Lino, que alcançou façanhas formidáveis na arte dos pios. Dito Lino era grande artista na imitação de aves com esses instrumentos, tendo mesmo destrinchado várias correntes linguísticas canoras de diferentes espécies voadoras de nossa região de serra.
Conseguia hipnotizar legiões de pássaros sendo conhecido o episódio, ocasião em que tendo saído a caçar, voltou pra casa pra pegar embornás sobressalentes.
Com seu mavioso trinar nos pios, conseguia convencer os pássaros a se entregar.
Exercia sobre as aves um poder tão grande, seu fantástico domínio das melodias e cânticos do mais belo repertório de cada uma daquelas espécies que, um a um, carreiras de jacus, inhambus e outras variedades vinham embevecidos, magnetizados e tantalizados, pousavam no interior de seu embornal. Evitava derramento de sangue. Foi a solução mais justa.
Ele só tinha que pedir para os que estavam na fila que esperassem um pouco, fechava bem a aba para que os que lá estavam se sufocassem, economizando cartuchos, também, é claro. Preço da pólvora era uma barbaridade.
Conseguiu encher os embornás que levava e ainda teve que buscar sobressalentes para dar conta de atender a demanda.
(Minha mente de criança ficava imaginando: mas que mundo maravilhoso este ! Adultos que conseguem inventar apitos que imitam perfeitamente o cantar de um tipo de ave, outro tipo de pios para outras espécies: como conseguem isto ? Só podem ser pessoas geniais. São pessoas com certeza, as mais inteligentes do mundo, que fantástico este mundo maravilhoso dos adultos...).
Nos dias anteriores já tinhamos preparado os cartuchos; papai sempre tinha em casa pólvora, chumbinhos.
Café preto numa garrafa de vidro, o virado de farinha com ovo, o estoque de água e uns pés-de-moleque. Tudo dentro do embornal, o meu, de pano, amarrado ao corpo, o do pai, de verdade, de lona, com aba, presilha forte, resistente.
Calça comprida, camisa até o punho, botinas, chapéus. Íamos então mata adentro.
Embrenhando pelas trilhas de mateiros. Interessante que no interior da mais fechada mata, parece que em todas as matas do mundo, sempre se acham vestígios humanos. Alguém, um dia, um mateiro solitário, já andou por ali. A duzentos anos, ano passado, um dia, sempre tem um humano mergulhado na mata.
Pai à frente, desbravando o caminho, facão lambendo os galhos. Homem e menino se afastando cada vez mais da cidadezinha.
Sons de vida do lugarejo lentamente diminuindo à medida que subiam pelos morros cobertos de mata virgem, a mesma mata que lá já estava quando o Brasil foi descoberto. Cada vez mais trançada de cipós, teias de aranha, gravatás. Espessa, densa, solene. Até que se ouvia ao longe um grito mãe chamando um menino; mais tarde sobressaía uma buzina de caminhão, depois, um suave badalar derramado da torre da igreja, sino lembrando alguma hora morta do meio da tarde. Com muita nitidez o cocorejar de uma galinha espantada, tamanho ovo acabara de pôr.
Íamos chegando ao íntimo da floresta. Não mais vestígios de vida exterior. Somente silêncio enfeitado de zumbidos, alguns pios, estridências de pássaros, água rumorejando em alguma queda nas imediações.
Uma vida brota no interior daquele mundo, distante dos conhecidos sons humanos. Miríade de pequenos sons de insetos, abelhas zumbidos, ruídos inimagináveis crescendo no corpo do silêncio da mata. Silente e majestosa catedral verde iluminada por nesgas de estridências, como relâmpagos na noite. Pios, frases-solos, bravatas, aqui e alí. Pássaros em viagem anunciando passagem.
Toda sinfonia da natureza cadenciando pesadamente no sentir. O pulso da alma coletiva, aquela multidão de vida entrando pelos sentidos, pelas narinas, pele.
Acima das árvores, das altas copas, o azul rendado do céu, o sol. O dia pára, as horas hesitam.
Aqui a vida não precisa de engrenagens, relógios, mecanismos, compromissos. A única máquina, arma superior da criação, dona da vida e morte, está em nossas mãos: o pau de fogo.
Se aprende uma nova habilidade, nova exigência.
Sobrevivência da espécie humana no limite, na fronteira da natureza. Usar todos recursos do conhecimento para se sobrepor ao que é arisco, fugidio. Ao que está em seu próprio mundo e pressente todo perigo.
Atenção criativa, despir o humano, integrar o animal ao primitivo habitat.
Um descuido pode ser fatal.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
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