segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

FAZENDA PIXEL (Segunda Parte)

E assim foi feito.

Numa manhã de sábado ela desembarca sua pequena mudança em uma nova vida. De uns cômodos de porão na dura periferia da metrópole para uma casa de quatro quartos, banheiros, quintal, varanda etc no centro da microcity.


Finalmente estávamos juntos e vamos arrumar nossas coisas, nossas vidas. Instalar a casa, a nova família. Escola pra filha, aulas de arte, novas amizades, uma vida mais digna.
E assim tivemos um período de lua de mel com as novidades.

Durante a semana ela cuidava das suas vidas, dos imóveis, aluguéis, enquanto eu ia para a bigcity trabalhar.


Fins de semana eu voltava para o ninho.


Saíamos a passear, levá-la a conhecer a região. Íamos de carro por estradinhas serpenteantes nas montanhas. Visitávamos os picos mais altos admirando estonteantes paisagens a se perderem de vista. Exploramos fundos de vales, cachoeiras naturais, suas enormes sambaias e cipós.


Escalamos muralhas naturais de pedras sentindo o vento no rosto, alegrias de simplesmente estar juntos, sorrir, viver sem ansidedade.


Em belvederes ao sol, pendurados sobre o abismo, sorvemos a amplitude da paisagem. Arroubos dos céus, grandes ondulações de montanhas em tons de verde se esmaecendo até a azulada cadeia de serras no horizonte.


Descobríamos recantos mágicos e seus riachos maravilhosos. Casinhas de sonhos, alegremente floridas, riachinho de água gelada em frente.

Taperas abandonadas em grotões, jaboticabeiras servindo-nos o mais delicioso dos néctares.

Muitas pamonhas com cafezinho à beira de estrada. A vida um manso preencher de atrações.

Aquilo que seria um sonho, parece que seria melhor ainda. Depois de uma existência enfiada na grande cidade, comecei a pensar que era hora de mudar de vida, voltar às origens.

Mas enquanto isto, para que o sonho se tornasse real, eu deveria estar alimentando bem mais fortemente a conta bancária da parceira. E isto não acontecia. Bem menos do que gostaria era o que eu podia remeter.

Ela cuidava dos aluguéis, encaminhava os acontecimentos em relação as casas de renda, recebia e repassava religiosamente os valores. Havia a orientação de que se precisasse, poderia usar o necessário. Mas no início não tocava em dinheiro do coletivo. E eu, de outra parte, falhando em não remeter uma quantia que a deixasse tranquila.

De alguma forma tínhamos chegado em um ponto de virada. Talvez inconscientemente não me esforçasse muito em mantê-la como uma dondoca no interior. Talvez quisesse que ela descobrisse por seus méritos as virtudes econômicas do local. Não apetecia uma pessoa que estagnasse e se aboletasse numa situação patriarcal. Bem, por todas as razões ocultas do mundo, fato é que o dinheiro pingava pouco a partir da grande cidade para a outra ponta do barco. E ele vai naufragar.

Aos poucos aquela situação de razoável conforto rodeada de pouco dinheiro, foi esfolando a parceirinha. Climas desagradáveis surgiam aos fins de semana e quase que sistematicamente havia uma descompensada emocional. Voltava pra grande cidade magoado, espinho no coração. Passava a semana me curando no trabalho e no próximo descanso, fatalmente alguma outra ferroada.
Isto foi acendendo uma lampadinha vermelha, alerta.

Alguns telefonemas vindo do interior, às noites, durante a semana, davam voz pastosa falando bobagens. Mais lampadinha vermelhas. Piscantes. Cervejas solitárias ao fim do dia. Quantas ? Todos os dias ?

Numa blitz num fim de semana, escancarou-se a questão do consumo de álcool. Fiz ver a inadmissibilidade da bagaça, fechei questão. Posteriormente o desaparecimento de vestígios me levou tolamente a pensar que a questão fora resolvida.
A continuação do bate-cabeças aos fins de semana me faz agora crer que a bebida vai excretando uma personalidade rombuda, um jeito mais carroceiro de ser. A crueza, o esgarçamento do trato minam o bem-querer.

A qualidade do sexo consequentemente ia deixando a desejar. Os balões que se inflavam pelo perigo, pela beleza negra selvagem, o instinto, agora se ralavam nas pedreiras da alma.
Todo ciclo de uma relação à deriva se instalando.

(dolorosamente continua...)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

OVNÍRICOS

Descendo pela Rua Vicente Chiaradia, direção avenida principal, casarão de minha vó na esquina à esquerda. Noite escura, céu todo embaçado por formações de altas nuvens. Lua ausente, estrelas escondidas, pouca iluminação nas ruas.

De um grupo de pessoas na calçada do casarão, próximo à avenida, alguém sai para atravessar a rua, dá uns passos e cai chapado no chão. Isto me chama o olhar mas eis que naquela direção, ao alto das montanhas, acima das matas do lado norte, vejo pequenas luzes distantes se aproximando. Vêm numa formação semelhante a uma estrela de Davi irregular.

Embora a pessoa tenha caído fico apontando para o fenômeno, saltando, sem conseguir falar.

A formação de luzes atravessa todo o céu acima da cidade, segue e desaparece na direção sudoeste.

Daí a pouco, nessa região, além das montanhas, das árvores e pinheirais, uma grande área do céu vai ficando iluminada. Pelo inusitado tamanho da região intensamente clareada, um grande fenômeno está prestes a ocorrer. Não se sabe o que é, pressinto algo além de qualquer delírio da imaginação.

A magnitude da região banhada de uma luz verde iridescente, bem não dá pra ficar descrevendo muito. Da intensidade da luz banhando todo aquele quadrante do céu, como se fossem mil bombas atômicas, acima do horizonte, começa a se revelar um esqueleto, uma superestrutura de uma máquina voadora fantástica, uma super-nave mãe. Como se fosse um reino, uma cidade completa, dezenas de quilômetros, uma estrutura vai tomando o céu.

Não se consegue divisar partes e detalhes nitidamente. Se percebe a incrível dimensão daquilo mas a luminescência, o intenso brilho exarado não permite identificar concretudes.

Sabe-se que é um grupo sólido de um material desconhecido, âmbar, poderosíssimo, grandes blocos delineados, contornados por um material como que gosma brilhante, florescente, material duríssimo, maleabilíssimo, amarelo-ocre, cor de caroço de pêssego.

Nota-se o delineamento, os contornos de uma grande máquina, imenssíssima estrutura de dezenas de milhares de campos de futebol.

Uma visão de extraordinário impacto. Impressão que se está diante do que há de maior, mais poderoso, avançado no universo. Em grande altitude cruza o firmamento monstruosa carruagem. Segue na direção nordeste, para a mesma região de onde surgiram as luzes iniciais.

Nem bem digerida esta comoção, esta catarse tecnológica toda, olhos esbugalhados mal conseguem se fechar de tanta satisfação, novamente o céu se abre na mesma região sudoeste.

Outra vez acima das montanhas, das silhuetas das imensas árvores e pinheiros, o horizonte ganha feérica iluminação.

Grandiosíssima superestrutura vai se revelando em meio a intensa luminosidade, se aproxima lentamente para o meio da abóbada celeste, sobre nossa região.

Havia mais beleza nesta segunda super-nave. Divide-se em suas seções. A primeira como espécie de corpo central, motor avançado, casa de máquinas, pilotagem e a segunda parte, delicada estrutura em forma de bebê recém-nascido, bem embrulhado, lembrando a maneira esquimó, mongol, oriental, de enrolar nenês.

Mas o que se via era o delineamento deste desenho naquele material cor de caroço de pêssego contornando todo o brilho. Tudo isto tomando dimensões de milhares de estádios esportivos. O desenho, delicado, o tamanho, estapafúrdio.

Estou me referindo a possíveis maiores estruturas do tipo existentes no universo.

Parecia que estávamos diante do nascimento do rebento de uma autoridade central, do que havia de mais importante no mundo de onde vinham aquelas criaturas.

A impressão era de que se tratava de uma espécie de arquia do tipo único, um sistema milenar de organização social imperial, monárquico, altamente aglutinado, ancorado em desenvolvimento técno-científico poderosíssimo, extremamente avançado.

E sentimentos não haviam sido eliminados naquela civilização. Pelo contrário. Era uma data festiva e a comitiva se dirigia a outra região do universo.

Lindo, maravilhoso de se olhar. O volume de amor envolvido na operação era gigantesco.

Como se a nave, tudo aquilo, fosse apenas um esquema gráfico. O delineamento feito pelo material amarelo-ocre, cor de caroço de pêssego, a grandeza, complexidade, superioridade, poder e delicadeza de todo espetáculo nos extasiou a todos. De uma beleza, poesia superior.

Já a segunda nave quase tendo saído do alcance da visão, a confirmar o motivo da grande festa, saiu da rabeira de sua imensa estrutura, espécie de nuvem, formações esféricas, coágulos deste material ocre iridescente .

Esta formação vem em direção à nossa região e estaciona a uns mil metros de altura, sobre a cidadezinha.

Dispara maravilhosa salva de fogos. A diferença que estas explosões eram mais suaves e harmoniosas em relação às que conhecemos, tinham sons mais delicados e alegres.
Se via agora que as nossas salvas, nossos fogos de artifício terráqueos, eram nada mais que tentativas grotescas de copiar aquilo que ali ouvíamos.

Fiquei curioso em saber que material seria aquilo. Achei que poderia cair do céu algum pedaço, estilhaço, do material que produzia esta diferente salva.

Estendo o braço, mão aberta. Por sorte vejo, algo se enrosca em meu dedo. Um material parecido como um pedaço de balão de borracha, tripa de porco, material levemente viscoso, esbranquiçado.
Quando começo a analisar, uma voz se aproxima: é.....(diz o nome de um material químico complicado) – encontrado nos cemitérios.


Criado, lavado, ensacado e lacrado em SP, 07/02/2010

domingo, 24 de janeiro de 2010

SAL DA TERRA

Meu nome é Fernando Martinho, moro em São Paulo desde 1975.

Nasci num lugarejo, no interior do estado, com pouco mais de cinco mil habitantes na minha infância.

Me lembro muito claramente, quando aos quatro anos, saindo pelo corredor da casa de minha avó, olhei para a torre da igreja, pensei comigo mesmo: nasci neste lugar pequeno mas quando crescer vou viver na maior cidade que existir.

Quando jovem, minha família morava no Vale do Paraíba. Tinha que decidir onde iria estudar, viver. Se no Rio ou se em São Paulo.

Fui ao Rio e lá fiquei uma semana. Praias, festas, loucuras mil.

Depois vim à São Paulo e fiquei aqui outra semana.

Achei as pessoas aqui mais objetivas, pontuais e tive medo de desbundar de vez se fosse para o Rio.

Decidi que iria morar em São Paulo, me mudei prá cá.

Ao longo dos tempos certos episódios vieram confirmar que estava certo.

O que vou relatar parece estranho, quase um detalhe mas me marcou muito e serviu como emblema pra ensinar um pouco da beleza, da grandeza anônima de muita gente desta megalópole.

Na época, por volta de 1990, trabalhava como representante de várias editoras médicas.

Colocava livros científicos no carro e saía a visitar clínicas, escolas, hospitais, onde houvesse profissionais ou estudantes da área da saúde.

Vou até a Mooca visitar o Hospital João XXIII, próximo ao Clube Juventus.

Meio da manhã, dez, onze horas, deixo meu carro próximo ao hospital, pego minhas tabelas, bolsa com livros e vou em direção à portaria do Pronto Socorro.

Quando estou no meio da rua, chega desembestado um carro esporte bege, acho que um Corcel. Freia bruscamente, desce uma moça chorando, gritando desesperada, pedindo por socorro. Berrava feito louca, implorava para salvarem a vida da mãe, que não a deixassem morrer.

Tinha sofrido um infarto ou acidente vascular cerebral durante o banho, estava estirada no banco de trás, nua, coberta por lençol. Uma senhora de mais de sessenta anos, obesa.


Naquele momento um médico vem subindo a rampa de saída.
O doutor devia ter uns trinta e cinco a quarenta anos. Muito bem arrumado, roupas brancas bem talhadas, elegantes, sapatos brancos impecáveis, maletinha de couro, óculos, cabelos bem cortados. Aparência de especialista bem sucedido.

Tinha feito visitas aos seus pacientes que ali estavam internados, ou cumprido sua passagem matutina por aquele hospital e iria provavelmente para sua clínica ou outro emprego.

Neste instante ele põe o pé na rua, a filha desesperada gritando por socorro à mãe.

Pessoas atônitas olhando uma pras outras, alguém sai correndo pra dentro do hospital, onde tem cadeira de rodas, maca ?, guardas de portaria levam seus rádios à boca.

O médico corre, abre a porta do lado do motorista, deita o banco, entra no carro.

Uma pessoa entra pela lado do passageiro e há aquele instante em que as coisas ficam paradas no ar.

Eu chego bem próximo, testemunho algo que me corta o coração. Uma onda de emoção me pegou com o que vi.

Ninguém mais percebe. Meus olhos estavam lá. Registro e guardo nas minhas retinas pra sempre.

Um pequeno detalhe do que é São Paulo, das pessoas que aqui vivem, do que é a alma de um médico, do que é a grandeza de alguém que traz em si a vocação do dedicar-se, doar-se.

Na urgência, desespero do instante, observei que o doutor, todo limpinho, arrumado, perfumado, se agachou e enfiou a mão por baixo da senhora para erguê-la e poder sair com ela pelo lado do passageiro.

Não conseguiu segurar, as mãos, braços escorregam. No momento em que ele retira os braços e vai se posicionar melhor para levantá-la, percebe manchas de fezes nas mãos, nas mangas da camisa branquinha.

A mulher havia relaxado durante o ataque.

De pé ali ao lado, percebo, não tem um segundo de titubeio. Não vacila um átmo, a menor dúvida, o menor receio. Nunca o impulso de parar, se levantar, chacoalhar a cabeça, mandar chamar o funcionário subalterno, a atendente de enfermagem, quem fosse, para fazer a tarefa.

Instantaneamente, com mais intensidade ainda, sabendo o que havia pela frente, agarra fortemente a senhora, enfia as mãos com mais força os braços, a fim de suportá-la melhor e, bem, pra mim foi o bastante. Me afastei da cena com os olhos embaçados.

A lição humana muito forte.

Fiquei refletindo, sim, valia a pena lutar. Gostava de falar com médicos todos os dias, levar-lhes novidades. Gostava de fazer isto. Havia muitas pessoas dignas em SPaulo, nesta cidade, neste mundo.

Jamais iria esmorecer, tudo o que eu pudesse fazer pelo próximo, ainda seria pouco.

Acho que este médico marcou, esta atitude ficou como símbolo pra mim de toda uma classe de pessoas que se dedicam a salvar vidas de outros, aliviar dores, ajudar terceiros, seja lá de quem for.
Pessoas que vão ajudar em mutirões de toda espécie. Que no seu recôndito fazem a diferença.
Sem olhar para a platéia, sem buscar aplauso.
Uma forma bonita que humanos têm pra dizer a outros, eu amo você.
Você, êle, nós, todos importam.
Dizer que tudo vale a pena.

Na figura deste profissional, na beleza amorosa de seu gesto, se pode homenagear todas as pessoas desta grande cidade grande que anonimamente constroem um mundo melhor.
Pessoas que são o Sal da Terra.

Um beijo pra todo mundo !