E assim foi feito.
Numa manhã de sábado ela desembarca sua pequena mudança em uma nova vida. De uns cômodos de porão na dura periferia da metrópole para uma casa de quatro quartos, banheiros, quintal, varanda etc no centro da microcity.
Finalmente estávamos juntos e vamos arrumar nossas coisas, nossas vidas. Instalar a casa, a nova família. Escola pra filha, aulas de arte, novas amizades, uma vida mais digna.
E assim tivemos um período de lua de mel com as novidades.
Durante a semana ela cuidava das suas vidas, dos imóveis, aluguéis, enquanto eu ia para a bigcity trabalhar.
Fins de semana eu voltava para o ninho.
Saíamos a passear, levá-la a conhecer a região. Íamos de carro por estradinhas serpenteantes nas montanhas. Visitávamos os picos mais altos admirando estonteantes paisagens a se perderem de vista. Exploramos fundos de vales, cachoeiras naturais, suas enormes sambaias e cipós.
Escalamos muralhas naturais de pedras sentindo o vento no rosto, alegrias de simplesmente estar juntos, sorrir, viver sem ansidedade.
Em belvederes ao sol, pendurados sobre o abismo, sorvemos a amplitude da paisagem. Arroubos dos céus, grandes ondulações de montanhas em tons de verde se esmaecendo até a azulada cadeia de serras no horizonte.
Descobríamos recantos mágicos e seus riachos maravilhosos. Casinhas de sonhos, alegremente floridas, riachinho de água gelada em frente.
Taperas abandonadas em grotões, jaboticabeiras servindo-nos o mais delicioso dos néctares.
Muitas pamonhas com cafezinho à beira de estrada. A vida um manso preencher de atrações.
Aquilo que seria um sonho, parece que seria melhor ainda. Depois de uma existência enfiada na grande cidade, comecei a pensar que era hora de mudar de vida, voltar às origens.
Mas enquanto isto, para que o sonho se tornasse real, eu deveria estar alimentando bem mais fortemente a conta bancária da parceira. E isto não acontecia. Bem menos do que gostaria era o que eu podia remeter.
Ela cuidava dos aluguéis, encaminhava os acontecimentos em relação as casas de renda, recebia e repassava religiosamente os valores. Havia a orientação de que se precisasse, poderia usar o necessário. Mas no início não tocava em dinheiro do coletivo. E eu, de outra parte, falhando em não remeter uma quantia que a deixasse tranquila.
De alguma forma tínhamos chegado em um ponto de virada. Talvez inconscientemente não me esforçasse muito em mantê-la como uma dondoca no interior. Talvez quisesse que ela descobrisse por seus méritos as virtudes econômicas do local. Não apetecia uma pessoa que estagnasse e se aboletasse numa situação patriarcal. Bem, por todas as razões ocultas do mundo, fato é que o dinheiro pingava pouco a partir da grande cidade para a outra ponta do barco. E ele vai naufragar.
Aos poucos aquela situação de razoável conforto rodeada de pouco dinheiro, foi esfolando a parceirinha. Climas desagradáveis surgiam aos fins de semana e quase que sistematicamente havia uma descompensada emocional. Voltava pra grande cidade magoado, espinho no coração. Passava a semana me curando no trabalho e no próximo descanso, fatalmente alguma outra ferroada.
Isto foi acendendo uma lampadinha vermelha, alerta.
Alguns telefonemas vindo do interior, às noites, durante a semana, davam voz pastosa falando bobagens. Mais lampadinha vermelhas. Piscantes. Cervejas solitárias ao fim do dia. Quantas ? Todos os dias ?
Numa blitz num fim de semana, escancarou-se a questão do consumo de álcool. Fiz ver a inadmissibilidade da bagaça, fechei questão. Posteriormente o desaparecimento de vestígios me levou tolamente a pensar que a questão fora resolvida.
A continuação do bate-cabeças aos fins de semana me faz agora crer que a bebida vai excretando uma personalidade rombuda, um jeito mais carroceiro de ser. A crueza, o esgarçamento do trato minam o bem-querer.
A qualidade do sexo consequentemente ia deixando a desejar. Os balões que se inflavam pelo perigo, pela beleza negra selvagem, o instinto, agora se ralavam nas pedreiras da alma.
Todo ciclo de uma relação à deriva se instalando.
(dolorosamente continua...)
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