domingo, 7 de fevereiro de 2010

OVNÍRICOS

Descendo pela Rua Vicente Chiaradia, direção avenida principal, casarão de minha vó na esquina à esquerda. Noite escura, céu todo embaçado por formações de altas nuvens. Lua ausente, estrelas escondidas, pouca iluminação nas ruas.

De um grupo de pessoas na calçada do casarão, próximo à avenida, alguém sai para atravessar a rua, dá uns passos e cai chapado no chão. Isto me chama o olhar mas eis que naquela direção, ao alto das montanhas, acima das matas do lado norte, vejo pequenas luzes distantes se aproximando. Vêm numa formação semelhante a uma estrela de Davi irregular.

Embora a pessoa tenha caído fico apontando para o fenômeno, saltando, sem conseguir falar.

A formação de luzes atravessa todo o céu acima da cidade, segue e desaparece na direção sudoeste.

Daí a pouco, nessa região, além das montanhas, das árvores e pinheirais, uma grande área do céu vai ficando iluminada. Pelo inusitado tamanho da região intensamente clareada, um grande fenômeno está prestes a ocorrer. Não se sabe o que é, pressinto algo além de qualquer delírio da imaginação.

A magnitude da região banhada de uma luz verde iridescente, bem não dá pra ficar descrevendo muito. Da intensidade da luz banhando todo aquele quadrante do céu, como se fossem mil bombas atômicas, acima do horizonte, começa a se revelar um esqueleto, uma superestrutura de uma máquina voadora fantástica, uma super-nave mãe. Como se fosse um reino, uma cidade completa, dezenas de quilômetros, uma estrutura vai tomando o céu.

Não se consegue divisar partes e detalhes nitidamente. Se percebe a incrível dimensão daquilo mas a luminescência, o intenso brilho exarado não permite identificar concretudes.

Sabe-se que é um grupo sólido de um material desconhecido, âmbar, poderosíssimo, grandes blocos delineados, contornados por um material como que gosma brilhante, florescente, material duríssimo, maleabilíssimo, amarelo-ocre, cor de caroço de pêssego.

Nota-se o delineamento, os contornos de uma grande máquina, imenssíssima estrutura de dezenas de milhares de campos de futebol.

Uma visão de extraordinário impacto. Impressão que se está diante do que há de maior, mais poderoso, avançado no universo. Em grande altitude cruza o firmamento monstruosa carruagem. Segue na direção nordeste, para a mesma região de onde surgiram as luzes iniciais.

Nem bem digerida esta comoção, esta catarse tecnológica toda, olhos esbugalhados mal conseguem se fechar de tanta satisfação, novamente o céu se abre na mesma região sudoeste.

Outra vez acima das montanhas, das silhuetas das imensas árvores e pinheiros, o horizonte ganha feérica iluminação.

Grandiosíssima superestrutura vai se revelando em meio a intensa luminosidade, se aproxima lentamente para o meio da abóbada celeste, sobre nossa região.

Havia mais beleza nesta segunda super-nave. Divide-se em suas seções. A primeira como espécie de corpo central, motor avançado, casa de máquinas, pilotagem e a segunda parte, delicada estrutura em forma de bebê recém-nascido, bem embrulhado, lembrando a maneira esquimó, mongol, oriental, de enrolar nenês.

Mas o que se via era o delineamento deste desenho naquele material cor de caroço de pêssego contornando todo o brilho. Tudo isto tomando dimensões de milhares de estádios esportivos. O desenho, delicado, o tamanho, estapafúrdio.

Estou me referindo a possíveis maiores estruturas do tipo existentes no universo.

Parecia que estávamos diante do nascimento do rebento de uma autoridade central, do que havia de mais importante no mundo de onde vinham aquelas criaturas.

A impressão era de que se tratava de uma espécie de arquia do tipo único, um sistema milenar de organização social imperial, monárquico, altamente aglutinado, ancorado em desenvolvimento técno-científico poderosíssimo, extremamente avançado.

E sentimentos não haviam sido eliminados naquela civilização. Pelo contrário. Era uma data festiva e a comitiva se dirigia a outra região do universo.

Lindo, maravilhoso de se olhar. O volume de amor envolvido na operação era gigantesco.

Como se a nave, tudo aquilo, fosse apenas um esquema gráfico. O delineamento feito pelo material amarelo-ocre, cor de caroço de pêssego, a grandeza, complexidade, superioridade, poder e delicadeza de todo espetáculo nos extasiou a todos. De uma beleza, poesia superior.

Já a segunda nave quase tendo saído do alcance da visão, a confirmar o motivo da grande festa, saiu da rabeira de sua imensa estrutura, espécie de nuvem, formações esféricas, coágulos deste material ocre iridescente .

Esta formação vem em direção à nossa região e estaciona a uns mil metros de altura, sobre a cidadezinha.

Dispara maravilhosa salva de fogos. A diferença que estas explosões eram mais suaves e harmoniosas em relação às que conhecemos, tinham sons mais delicados e alegres.
Se via agora que as nossas salvas, nossos fogos de artifício terráqueos, eram nada mais que tentativas grotescas de copiar aquilo que ali ouvíamos.

Fiquei curioso em saber que material seria aquilo. Achei que poderia cair do céu algum pedaço, estilhaço, do material que produzia esta diferente salva.

Estendo o braço, mão aberta. Por sorte vejo, algo se enrosca em meu dedo. Um material parecido como um pedaço de balão de borracha, tripa de porco, material levemente viscoso, esbranquiçado.
Quando começo a analisar, uma voz se aproxima: é.....(diz o nome de um material químico complicado) – encontrado nos cemitérios.


Criado, lavado, ensacado e lacrado em SP, 07/02/2010

Nenhum comentário:

Postar um comentário