domingo, 24 de janeiro de 2010

SAL DA TERRA

Meu nome é Fernando Martinho, moro em São Paulo desde 1975.

Nasci num lugarejo, no interior do estado, com pouco mais de cinco mil habitantes na minha infância.

Me lembro muito claramente, quando aos quatro anos, saindo pelo corredor da casa de minha avó, olhei para a torre da igreja, pensei comigo mesmo: nasci neste lugar pequeno mas quando crescer vou viver na maior cidade que existir.

Quando jovem, minha família morava no Vale do Paraíba. Tinha que decidir onde iria estudar, viver. Se no Rio ou se em São Paulo.

Fui ao Rio e lá fiquei uma semana. Praias, festas, loucuras mil.

Depois vim à São Paulo e fiquei aqui outra semana.

Achei as pessoas aqui mais objetivas, pontuais e tive medo de desbundar de vez se fosse para o Rio.

Decidi que iria morar em São Paulo, me mudei prá cá.

Ao longo dos tempos certos episódios vieram confirmar que estava certo.

O que vou relatar parece estranho, quase um detalhe mas me marcou muito e serviu como emblema pra ensinar um pouco da beleza, da grandeza anônima de muita gente desta megalópole.

Na época, por volta de 1990, trabalhava como representante de várias editoras médicas.

Colocava livros científicos no carro e saía a visitar clínicas, escolas, hospitais, onde houvesse profissionais ou estudantes da área da saúde.

Vou até a Mooca visitar o Hospital João XXIII, próximo ao Clube Juventus.

Meio da manhã, dez, onze horas, deixo meu carro próximo ao hospital, pego minhas tabelas, bolsa com livros e vou em direção à portaria do Pronto Socorro.

Quando estou no meio da rua, chega desembestado um carro esporte bege, acho que um Corcel. Freia bruscamente, desce uma moça chorando, gritando desesperada, pedindo por socorro. Berrava feito louca, implorava para salvarem a vida da mãe, que não a deixassem morrer.

Tinha sofrido um infarto ou acidente vascular cerebral durante o banho, estava estirada no banco de trás, nua, coberta por lençol. Uma senhora de mais de sessenta anos, obesa.


Naquele momento um médico vem subindo a rampa de saída.
O doutor devia ter uns trinta e cinco a quarenta anos. Muito bem arrumado, roupas brancas bem talhadas, elegantes, sapatos brancos impecáveis, maletinha de couro, óculos, cabelos bem cortados. Aparência de especialista bem sucedido.

Tinha feito visitas aos seus pacientes que ali estavam internados, ou cumprido sua passagem matutina por aquele hospital e iria provavelmente para sua clínica ou outro emprego.

Neste instante ele põe o pé na rua, a filha desesperada gritando por socorro à mãe.

Pessoas atônitas olhando uma pras outras, alguém sai correndo pra dentro do hospital, onde tem cadeira de rodas, maca ?, guardas de portaria levam seus rádios à boca.

O médico corre, abre a porta do lado do motorista, deita o banco, entra no carro.

Uma pessoa entra pela lado do passageiro e há aquele instante em que as coisas ficam paradas no ar.

Eu chego bem próximo, testemunho algo que me corta o coração. Uma onda de emoção me pegou com o que vi.

Ninguém mais percebe. Meus olhos estavam lá. Registro e guardo nas minhas retinas pra sempre.

Um pequeno detalhe do que é São Paulo, das pessoas que aqui vivem, do que é a alma de um médico, do que é a grandeza de alguém que traz em si a vocação do dedicar-se, doar-se.

Na urgência, desespero do instante, observei que o doutor, todo limpinho, arrumado, perfumado, se agachou e enfiou a mão por baixo da senhora para erguê-la e poder sair com ela pelo lado do passageiro.

Não conseguiu segurar, as mãos, braços escorregam. No momento em que ele retira os braços e vai se posicionar melhor para levantá-la, percebe manchas de fezes nas mãos, nas mangas da camisa branquinha.

A mulher havia relaxado durante o ataque.

De pé ali ao lado, percebo, não tem um segundo de titubeio. Não vacila um átmo, a menor dúvida, o menor receio. Nunca o impulso de parar, se levantar, chacoalhar a cabeça, mandar chamar o funcionário subalterno, a atendente de enfermagem, quem fosse, para fazer a tarefa.

Instantaneamente, com mais intensidade ainda, sabendo o que havia pela frente, agarra fortemente a senhora, enfia as mãos com mais força os braços, a fim de suportá-la melhor e, bem, pra mim foi o bastante. Me afastei da cena com os olhos embaçados.

A lição humana muito forte.

Fiquei refletindo, sim, valia a pena lutar. Gostava de falar com médicos todos os dias, levar-lhes novidades. Gostava de fazer isto. Havia muitas pessoas dignas em SPaulo, nesta cidade, neste mundo.

Jamais iria esmorecer, tudo o que eu pudesse fazer pelo próximo, ainda seria pouco.

Acho que este médico marcou, esta atitude ficou como símbolo pra mim de toda uma classe de pessoas que se dedicam a salvar vidas de outros, aliviar dores, ajudar terceiros, seja lá de quem for.
Pessoas que vão ajudar em mutirões de toda espécie. Que no seu recôndito fazem a diferença.
Sem olhar para a platéia, sem buscar aplauso.
Uma forma bonita que humanos têm pra dizer a outros, eu amo você.
Você, êle, nós, todos importam.
Dizer que tudo vale a pena.

Na figura deste profissional, na beleza amorosa de seu gesto, se pode homenagear todas as pessoas desta grande cidade grande que anonimamente constroem um mundo melhor.
Pessoas que são o Sal da Terra.

Um beijo pra todo mundo !

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