quarta-feira, 18 de novembro de 2009

CARTA A UM PAI - PARTE 1

ERA UMA VEZ HAVIA num remoto vilarejo de um país chamado Brasil, num tempo que se vai muito distante, um menino feliz.

Na pacata e ensolarada cidadezinha incrustrada nos altos de uma cadeia de montanhas, Serra da Mantiqueira, em um vale parecido com o interior de um vulcão, garganta cercada de altos morros cobertos de matas fechadas, o menino tinha um pai.

Não sabia disto, crescia sem perceber e o tempo foi fazendo ver que lá um dia, no tempo do era uma vez um menino tinha um pai.

Estava ao lado, em sua frente mas não o enxergava.

Não sabia que ele era tão especial.

Arrastavam-se os fins dos anos 50, começo de 60.

De manhã, na rádio, enquanto a mãe dobrava cobertas, tirava poeira dos móveis, limpava, varria, se desdobravam tramas e dores d'O Direito de Nascer.

Orientações para amor, negócios, uma sábia condução da vida, sob todos os pontos de vista, eram dadas pelo astrólogo Omar Cardoso.

O país começava a sair do berço esplêndido, olhar o mundo.

A cachorra Laika late no espaço e o Sputinik desafia nossa imaginação.

Era uma vez...

Quando alguém se propõe contar a história de um
menino que um dia teve um pai, não significa que queira relatar tim-tim por
tim-tim todos os fatos que aconteceram, sua rigorosa ordem cronológica,
pormenorizar todos detalhes.

Quando se viveu uma existência inteira, muito se viu, se amou, se
sentiu, desamou.

Coisas que aconteceram no início da jornada, nas primeiras camadas arqueológicas da vida, amontoadas no baú da memória, às vezes trocam de roupa ao longo da
escura noite dos tempos.

As vezes o que se tem são apenas indícios, fragmentos de informações, percepção de intenções que apontam para algo maior do que o momento presente.

Um pai é um pai. Concreto como um queijo fresco.

Mas isto é muito grande, de muito surpassa a possibilidade de caber nas finas letrinhas miúdas rabiscadas numa
folha em branco.

Um pai pode ter sido ótimo, bom, normal, não tão bom, péssimo,
diferente.

É o pai. Não se escolhe. Importa não mais perdê-lo. Para sempre.
Importa amá-lo, re-criá-lo. Como puder ser.

Um menino quando quer falar de seu pai, na verdade, quer construir
uma escada para o céu.

O pai desse menino, homem branco, estatura mediana. Descendente de portugueses, traços mediterrâneos.

Filho do meio de cinco irmãos, trazia temperada em sua aparência, lembranças de gentios, nativos ferozes.

As duras condições de vida, o tipo de educação aplicada à criação de filhos presentes à época da infância desse pai, mostram como surgiram certas inflexões em seu caráter.

Uma historiazinha ilustra a sofisticada pedagogia aplicada da época.

Seu pai, meu avô, tinha uma pequena fazenda no interior de Minas, distante uns 5 a 6 kilômetros de uma vila.
Numa ocasião manda o irmão mais velho, meu tio portanto, ir fazer algo na cidadezinha. O menino reclamou, não quiz ir.


O avô, rígido como provavelmente se era na época e por sua vez tendo sido criado também neste padrão, não teve dúvidas: aplicou logo uma surra bem dada no filho por não obedecer prontamente.

O menino sai pulando, rabo ardendo e vai cumprir a missão na cidadezinha. Chega lá, traumatizado, esqueceu o que tinha que fazer.

Volta pro sítio e conta. Avô aplica-lhe outra surra, manda de volta pra cidade e informa que todo dia, à tal hora, durante uma semana, vai levar uma coça para aprender. Vara de marmelo com hora marcada.

Assim era a vida, uma pequena faceta do mundo na infância do pai desse menino. Lida dura, duras lições, profundamente apreendidas.


Bonito, magro, um tanto narigudo, cabelos castanhos escuros, lisos e
espetados. Olhos de jataí.

Trabalhador incansável, observador perspicaz.
Amante de música, eternamente desafiando uma clarinete com seus chorinhos.
Demonstrava habilidades para o comércio, construção.
Gostava sempre de cultivar um bigodinho.

Ainda o vejo em uma cadeira
de barbeiro, espuma branca no rosto, olhos fechados, dormitando, sendo gentilmente esculpido pelo compadre soldado e afeitador.

Cabelos cortados, bem penteados com brilhantina, ainda moço vaidoso e galanteador, ajeitando suspensórios.
Obsessão por sapatos polidos. Uma existência de
sapatos engraxados, lição que incorporou da época em que fora militar no
exército.


Adorava criar passarinhos. Parte de seu ritual diário era limpar,
alimentar, trocar água das gaiolas. Estocava sempre seu alpiste, era sua
a beleza de cuidar e prover dos pequenos louvadores do céu.


Sua dedicação aos pintassilgos, canarinhos-da-terra e do-reino era retribuída: me lembro de vê-lo deixar abertas as portinhas das gaiolas. Os passarinhos saem em revoada em direção ao poente, passeiam o quanto querem por sobre nossa querida aldeia e horas depois um a um retornam ao lar.
Todos de volta ele fecha as portinhas para protegê-los dos gatos na noite.

Gostava de apanhar pimentas, prepará-las, deixar curtir. Adorava
pepinos que ele mesmo preparava no almoço.
Mantinha hábitos frugais e fumava
moderadamente.
Tinha uma forma predileta de fazer seu desjejum da manhã.
Preparava cedinho um perfumado café. Fritava ovos, bem mexidos, os
misturava com farinha de milho e pitadas de sal. Aquela mistura comia com prazer
enquanto sorvia goles do café quentinho.
A família acordava com aquele cheiro forte, gostoso no ar.
Apreciou isto toda uma vida, sua marca pessoal. Era o pai.

(continua)

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