sábado, 7 de novembro de 2009

FAZENDA PIXEL (Primeira Parte)

PORCOS-ESPINHO DE TODO O MUNDO, UNÍ-VOS !

Começo do ano, fim de um dia de trabalho, uma das maiores cidades do mundo. Época de verão, dias longos.

Estou num pequeno bairro no coração desta cidade. Geralmente se coloca o nome de vila para os bairros distantes nas periferias. Este porém, é o único pequeno bairro chamado de vila, na região central. A menos de dois quilômetros o marco zero de todas as distâncias, em frente à catedral.

Região de escritórios, faculdades, teatros, boates de pegação, pequenos apartamentos. Muitos estudantes, jovens casais, solteiros de todos os sexos e idades.

Passei as últimas horas trabalhando em minha seara na internet. Encerro as lides na Fazenda Pixel, fecho porteiras, deixo o cyber-café, ganho a calçada.

Dia acabando, mas a
tarde azul se rebela, insiste em não morrer. Rouba ao sol um carregamento de verão, injeta-se de uma luminosidade exótica. Embora os ponteiros dos relógios apontem a infração, explode em esplendor inesperado, quase artificial.

A noite se move tentando dominar o jogo. Provoca um vibrante céu azul marinho escandalosamente profano. Produz-se uma cor âmbar escandalosa nos edifícios, instalando no ar clima de palco.

Neste trecho urbano, microcosmo da megalópole, formigamento de noite se declara. Carros descem avenida, faróis acesos. Luzes penduradas sinalizando trânsito, brilham como enormes bolas natalinas; bares e farmácias se aboletam em seus mundinhos de neon. Árvores do parque em frente, perdem identidade, avançam como massas escuras sobre a fileira de prédios do lado oposto da rua.

Pessoas saem apressadas do trabalho, correm pelas calçadas. No trânsito, giroscópios coloridos da polícia, sirenes, buzinas. Acima do entra e sai nas lojas de comércio, sobre as copas negras das árvores, além dos edifícios, sobre a pressa da metrópole, a noite avança sufocando a tarde rebelde. Espremido entre o topo dos edifícios, o recorte escuro das árvores, um rasgo de céu, um grande camafeu de veludo azul profundo.

Instaurando, sendo emoldurado pela beleza e harmonia deste gigantesco broche, em seu ponto perfeito de equilíbrio proporcional, algo nunca presenciado: o brilhante engaste de marfim, enorme lua crescente devorando uma estrela assustada. Bem próximo à lua, quase em seu colo, uma fulgurante estrela amante se entregando.

Ícone vivo como uma bandeira nacional de uma mauritânia distante, escandalosamente belo, em tamanho natural.

Luz fantasmagórica do fim do dia, palco e cenário da vida urbana fervilhando ao redor, verde azulado dos sinaleiros, âmbar berrante no ambiente, tudo uma composição para o avistamento daquela magnificência que meus olhos nunca se cansarão de lembrar. Prendi, ou perdi ? o fôlego ao perceber aquele fenômeno. Tantalizado, queria dividir a experiência. Um evento de beleza única, raridade incomum, esfregando-se na cara de doze milhões de pessoas.


Por um átmo imaginei que veria jovens, homens, mulheres, parados, pacotes nas mãos, adorando, sorvendo aquele momento incrível, uma visão.

Qual nada, isto não pára. São Paulo continuava correndo. Uma experiência religiosa, uma mensagem clara, o grande telegrama poético do criador passara despercebido para as gentes.

A beleza, a grandeza do momento, importância da vida; terra, lua, estrêlas, galáxias, tudo ali solenemente presente numa prosaica esquina de um bairro central desta city.

A imagem gráfica de uma enorme lua resplandecente, devorando, amando, beijando uma enorme pérola viva. Lua e estrela tão próximas, só em desenho animado.

Guardei comigo a imagem, fui cuidar da vida. Dia seguinte, a notícia na TV: um fenônemo celeste de justaposição da Lua com Vênus ocorrera na noite anterior.

O espetáculo acontecerá novamente daqui a cinquenta e quatro anos !

Fim de semana seguinte viajei ao interior, à cidadezinha onde minha mulher estava. Comentei sobre a visagem, sua rara beleza. Ela também havia visto a lua voluptuosa.


Compartilhar este fato foi uma das últimas vivências agradáveis que tivemos. Isto foi um marco em nossas vidas. Os dois tínhamos visto o céu.

Era uma fase em que se tentava salvar a união, resgatar confiança, criar uma distensão, seguir juntos.


As coisas não vinham bem há um tempo. De minha parte, tentava salvar a união, tínhamos história. Durante mais de doze anos havíamos tido um relacionamento secreto, como amantes. Ela casada. Vivêramos uma vida dupla, como espiões de cinema. Isto tinha seu lado bom e incrustrado em seu interior havia também a semente de um aspecto mau, insuspeitado.

Tudo começara de uma forma inocente, impensada. Como estas coisas vão se desdobrando e suas implicações que levam a caminhos que nunca percorreríamos, são coisas interessantes de se observar.

Quando iniciamos nosso caso, meu casamento havia terminado não fazia muito tempo, apenas alguns meses. Antes porém de conhecer esta agora minha mulher, logo após ter me separado, já havia conhecido outra pessoa, pouco mais nova que eu, também recém saída de um casamento.

Esta, professora do grau médio em escola pública e em cursos preparatórios particulares para universidade, dava aulas de língua e literatura. Arrastava um doutorado em linguística na melhor universidade do país.
Uma baixinha muito sagaz, charmosa, escorregadia. Boa companhia, belas formas, tipo de pequena jóia, filé-mignon.
Embora madura, perfeita nos detalhes. Um corpinho sensual, pequeno violão, boca pequena. Cabelos fartos, negros e lisos, denotavam ascendência indígena, região amazônica.

Bastante instruída, articulada, fazia sexo razoável. Me atraia muito pelo brilho da inteligência, pelo humor, experiência e todo bouquet da mulher experiente. Pensava em tê-la como companheira para uma maturidade alegre, intensa. Vivências culturais, teatro, cinema, idéias, leituras, por muito anos.

Seu ex-marido, um ilustrador-cartunista, às voltas com computação gráfica em propaganda e cinema, parecia, era viciado em jogo. Já havia perdido muita coisa, por fim a própria família. Tinha dois filhos. Uma adolescente fluente em francês e um filho caçula, menino ainda, ratinho de cinema que sonhava ser crítico quando crescesse.

Eu me desconhecia no mundo sem casamento e traumatizado por ter perdido o meu, achei que iria encontrar meu porto seguro nesta relação. Por fim, uma enorme transferência emocional que estava me saindo muito bem. Ainda no início do meu caso com a indiazinha semiótica, acabei me enlevando com outra mulher totalmente oposta em muitos aspectos.

Por uns tempos caminhei por dois trilhos não paralelos.

Meus balões se inflavam pela pequena e charmosa professora. Parecia que eu tinha escapado do abismo da solidão, da perda de mim mesmo que me pesava o fim do casamento. E nas conversas e troca de informações e reconhecimentos, o destino me colocou armadilha.

Em clima de brincadeira, conversa inconsequente, exprimi uma injunção de cunho popular, um chiste homofóbico qualquer.
É claro que ninguém aqui é nazista-fascista gótico a ponto de manter uma postura medieval contra o homossexualismo e tudo mais.
Se respeita e pronto. Mas não se pode negar o histórico da questão na sociedade ocidental, no inconsciente coletivo.
Saber termos vivido todo um lento amadurecimento dos usos e costumes em nosso país, até chegar ao clima atual. O fundão psicossocial impregnado de preconceitos, felizmente cada vez mais caricaturais, contra gays.

Num momento de relaxamento, de liberdades politicamente incorretas, se faz alguma piada, ou no trânsito, se tasca um imbecíl de "seu veado, filho da puta", coisas que escapam no momento, de impulso, explosões lúdicas da alma coletiva.

Não me lembro exatamente de detalhes, circunstâncias, mas houve uma trombada nessa região, perto de uma curva onde a pessoa vira pra você e fala: "é mas eu tenho um irmão que é gay e minha írmã é homossexual". Aí fodeu.... ! Dificultam as coisas.

Antes disto eu já fora notificado de uma história meio pitoresca que minha parceira vivera. Estudante de linguística, professora, casada, mãe de filhos etc, havia se interessado pela produção poética de um artista popular de extração provincial, de uma região tida como um éden no Brasil.
Esta região famosa pela sua beleza geográfica e peculiaridade cultural, tem produzido talentos artísticos maravilhosos ao longo dos tempos. Continuava excretando sua dose endocrinológica, agora na figura de um camarada, cantor e compositor, de quem ela se encantou com a fortuna poética, em contato com as letras de suas músicas. Através de cartas e correspondências foi conhecendo a figura e foram se estreitando os laços entre o estudioso e sua presa, aliás objeto.

Longa história foi rolando, curiosidades, identificações, sentimentos afloraram e crescendo, urgiram. Gerou viagem para conhecer a realidade do bardo, por aí afora. E muita dedicação e estudo e certamente um agradável papo em beira de praia é preciso pra se conhecer de perto, bem próximo mesmo, todo o latejamento póetico desta gente bronzeada. O personagem, músico popular de raiz, mais ou menos isto, tinha um nome esquisito.

A persona artística deve ter surgido ao final da longa ditadura política no país. Havia então certa mania de artistas adotarem pseudônimos que exarassem as condições duras da vida do povo, nem que fosse por descuido. Era uma forma de protesto contra a situação política e econômica. Forçar o inusitado, romper limites. Não me lembro do pseudônimo, neste caso, mas era algo como Chulé, ou Sandália Havaiana Ensujada, ou Palafita ou um nome de lugar, estado, país que exprimisse miséria e desamparo, tipo Deus Me Livre, Puta Que Pariu, sei lá, coisa assim.

Ela me contava desta história peculiar, deste momento de liberdade que conhecera e da profunda ligação cultural, humana, existencial que com ele mantinha, sem grandes compromissos etc, etc. Estes etc são meio ruins de debulhar...

Nossas alegrias ainda se engatinhavam, eu certamente já tinha despejado toneladas de esperança na relação. Eis que o fulano vem lá do fim do mundo fazer uns shows na Megalópole. Por conta de fim de semana em que viajei, de melindre homofóbico fraterno reverso, a gente não se viu e a outra foi conferir a benga semiológica do artista popular.

Acordei na quarta-feira com forte ressaca emocional (não me ligou na segunda nem na terça) quando me dei conta de que estava na rua da amargura novamente. Senti mais forte ainda a tragédia que fôra a separação de meu primeiro casamento e mais pesadamente o fim desta esperança fugaz. Encontrar um porto seguro, uma pessoa maravilhosa.

Estava perdido novamente na selva. Não tinha conseguido salvar, pavimentar uma estrada de segurança e amor. Havia falhado na troca entre a mulher que perdera e uma outra, talvez melhor, que me manteria a salvo das mazelas da vida infeliz dos solitários separadões mortais.

Eu mantinha, na época, um escritório de telemarketing postal no terceiro pavimento de um modesto prédio de sete andares. Aqui nesta mesma região central onde agora cultivo minha seara de píxeis.
Alguns apartamentos deste predinho eram ocupados por pessoas que lá moravam .
Entre escritórios de despachantes, contabilidade, advogados, serviços, viviam no edifício uma argentina, cantora da noite, no primeiro andar. Fazia amor em horas inusitadas do dia enquanto dois andares acima a gente mourejava no escritório. Soluçava, chorava, num crescendo delicioso, gritante, colorindo a escala musical com os muitos tons do desejo, a voz sonora e melodiosamente escandalosa, intrigando e preocupando toda vizinhança. Parecia que ia morrer ou sair voando.

Alguns andares acima duas irmãs maduras e pacatas, antípodas astrais da portenha dividiam outro apartamento. Havia ainda um ou outro morador madurão e solitário, esporádico e um casal com uma criança no último andar.

Eu trabalhava muito, intensamente envolvido nos negócios; mal percebia as pessoas em volta. Subia e descia várias vezes ao dia pelo elevador. Superficialmente cumprimentava um usuário, um morador.

Havia este casal do último andar e de vez em quando acontecia de descermos juntos. Ele, um homem branco, de minha idade, faixa dos 40, na época, já bem calvo e uma expressão neutra de pessoa acomodada. Sempre bem arrumado, semblante cansado, cara de garçom, chef, crupiê, gente que trabalha na noite ou que não faz nada e vive entediado como um burocrata de serviço público.
Ela, morena mulata, bem mais nova que o marido, meio alta, muito magra, certa beleza selvagem. Traço étnico tribal forte tinha a testa enorme que avançava até quase o topo da cabeça. As proporções faciais bem equilibradas, belos olhos de cobra verde cinzentados.

O conjunto visual desta dona dava-lhe um apelo exótico. Ainda mais com o tipo de cabelo que ousava. Um autêntico black-power. Aquela montanha de pixaim erguido, armado, redondo, da dimensão de um pneu de caminhão, não, acho que exagerei: dimensão de um pneu de van, não!, menos ! do tamanho de uma melancia gigante, sim, parecia uma auréola queimada de um anjo mulato.
Bem, era um tipo de cabelo que não se via há bastante tempo na mídia.
Há quinze, vinte anos, fôra sinal de luta e rebeldia dos negros ao redor do mundo. Depois com os direitos civis sendo assimilados, aquela moda de exagero foi ficando esquecida, ultrapassada.

Chamava atenção aquela mulher esguia, bonita, com um cabelo espantoso. Parecia que talvez se tivesse incumbido de manter acesa a chama da luta pela igualdade dos povos. A última pessoa no mundo a usar o estilo militante black-power. Como se fosse uma visionária da retaguarda, a manter um sinal, um alerta até que a última liberdade pousasse no seio da raça negra.

E sempre acompanhando a mãe, uma garotinha também morena, cabelos encaracolados, de seus 4 a 5 anos, toda quietinha, cara redonda, bochechinhas destacadas, delicada, tímida e obediente.

Meros e formais cumprimentos ao sair e entrar em elevador, na portaria do prédio. Oi, oi, boa tarde, bom dia. Simpaticamente, mais nada.
Por vício adquirido da profissão de vendedor, eu tinha a mania de quebrar o gelo social com as pessoas. Elogiar, puxar conversa, tornar os pequenos momentos de elevador um rápido congraçamento. Ia então agradar a menininha, brincava, perguntava o nome, a idade, fazia algum comentário. Coisa ingênua, falta do que fazer durante o percurso do sobe-e-desce; política de boa vizinhança.

Nas conversas e respostas, pelo nome que tinham colocado na filha (típico de seriado enlatado americano) eu começava a perceber que era um tipo de gente bem simples, pouco formada, sem grandes pretensões na vida a não ser sobreviver na metrópole, consumir, ser consumido.
E desconfiava que o que havia embaixo daquela cabeleira da exótica mulata, no miolo daquela cabeça, o que havia lá, era alguma coisa bem rala. Quase que nenhum estudo, talvez um ciclo médio não concluído.
Família de migrantes rurais desembarcados nas capitais nas ondas de expropriação do campo. Operários de fábrica, serviços, mão de obra das indústrias manufatureiras.

Via aquele cabelão todo, black-power, e pensava se teria ligação com algum movimento, grupo. Perguntava pra ver o que saía daquela moita, aliás daquela montanha de cabelo. E percebia que nada havia por trás da fantasia. Ficara assim porque o cabelo dava muito trabalho. Ter que cortar, cuidar, pentear, pintar etc etc. Então deixava crescer meio livremente.

Nem tinha idéia do que quereria dizer aquele enorme penteado black-power, o sinal, manifesto mundial dos negros. Não tinha a dimensão histórica daquele símbolo como de resto de muito pouca coisa.

Na verdade fiquei um pouco assustado ao ver como dentro da sociedade havia pessoas que tinham a aparência de ser tão mais atuais, integradas às idéias e correntes do mundo cultural mas na verdade copiavam apenas a imagem, a embalagem. Viviam no invólucro.

E eu nunca convivera com alguém assim deste tipo. Oco no coco. Não sabia como funcionava, como percebiam o mundo, quais eram as razões de pessoas assim massificadas. Como viviam, agiam e reagiam os que não tinham pensamento próprio, individualidade formada. Pra mim era um mistério. Mas também não me interessava muito por saber. Tinha minhas idéias a respeito e pronto. Não me preocupava porque não via importância nisto. Você tem um percepção intelectual do esquema todo e detalhes não interessam muito.

Minha concepção de vida, meu mundo pessoal, sentimental era simples e transparente pra mim. Era montado de maneira a que, no topo de tudo o que havia de mais importante, no alto de minha escala de valores, estava o fato de que eu, após ter tido um casamento que ruíra, fracassara, fosse pela lei do destino, pela graça da vida, da beleza, de Deus, sei lá, encontrar outra mulher que amasse intensamente, reciprocramente, até mais do que a primeira.

Uma mulher que fosse mais delicada, mais fina, experiente, mais...tudo melhor que a primeira que havia perdido. Na verdade levei uns três anos para assimilar a perda do primeiro casamento; acordava chorando no meio da madrugada, essas coisas.

Bem, mas isto é outra história. Isto era o que eu esperava. Encontrar o grande amor ou um outro grande amor da minha vida.
Já tendo sido casado, experimentado e aprendido com a primeira união, pensei que facilmente encontraria alguém de um nível até melhor que o meu, talvez até mais inteligente. Que me fosse curar, dar a mão, nos apoiarmos, me levantar, ensinar a ser feliz, me amar de verdade e também fosse corresponder com todo meu ser.

O sexo nesta minha visão, era algo que viria de forma natural, completa, intensa, neste contexto maravilhoso que tinha certeza, iria acontecer.

Passava tempos sem me preocupar com isto, feridas da separação ainda em cicatrização. Jamais iria procurar sexo pelo sexo. Usar mulher como objeto. Isso não existia em meu horizonte.

Brincadeiras de elevador aqui, cumprimentos de corredor ali, começamos a ficar meio conhecidos, a morena dos olhos preciosos e eu.
Ela era meio rasa, mas eu também quase tinha morrido afogado em águas mais profundas e não via mal em conhecer e fazer amizade como uma moradora do prédio.
Até então eu não tinha menor intenção em relação a nada.

Estava se aproximando a data anual de festas, Natal. Época em que se entra em recesso, se viaja.

E um dia, após o expediente, apareceu um bilhetinho de baixo da minha porta. Trazia votos de felicidades pelas festividades e terminava mandando beijos.
Na primeira ocasião em que a encontrei sozinha no elevador, insinuei que eu queria cobrar ao vivo aqueles votos.
Não se perturbou. Sorriu e falou qualquer coisa não ofensiva. Numa próxima ocasião de elevador, perguntou se eu estaria no escritório dia tal, após o expediente. Sim.

Depois deixou um bilhetinho embaixo da porta confirmando a intenção. Ficamos de deixar a porta não trancada, após os funcionários terem ido embora.
Naquele dia minha expectativa cresceu muito. Finalmente a tarde chegou, o dia se encerrou, a equipe foi embora e não passei chave na porta.

E o anjo de pele morena e auréola queimada, desceu em meu andar. Timidamente fomos conversando e havia a sensação de que não tínhamos muito tempo para rodeios. Era uma fresta aberta nos roteiros diários.
Havia uma frisson, uma certa pressa, um impulso no ar.

Nem me lembro mais o teor das primeiras palavras. Alguma coisa meio rápida, reconhecimentos superficiais. Estava tudo bem, o marido tinha saído.
Não, a gente não queria se envolver. Medo de se machucar em romance, no amor.
Um elogio, um toque de pele, o desejo pulsando. Instinto começando a pegar fogo. Não é toda hora em que se tem pela frente esse luxo audacioso da lascívia, a mulher transpondo o sacrossanto portal do matrimônio.

Só desejo, Desejo. Começam toques, faces se roçando, aproximações meio inocentes. Bocas acabam se achando, se encontram, se beijam e mais e mais, longamente, demoradamente.
Se aninhar no pescoço, afundando, lambendo o colo, mordiscar.
Ahhh ! Abraços apertados, mais beijos gulosos, luxúria injetando sua urgência.
Quando se trata de algo proibido, tabu milenar, o instinto animal vem à galope.
Ali, frente à frente, desejo proibido de uma fêmea, a civilização perde os bons modos. Respiração acelera, eternidade pinicando, explodindo à flor da pele. A outra flor, carnívora, armando seu bote.
Boca passa a ser órgão exploratório. O nariz parte em circunavegações extensas, olfato resgatando vocações milenares em busca de exóticas e deliciosas especiarias. Cabelo enroladinho na nuca, boca lambendo, sentindo o contorno dos desejos, línguas egoístas em briga de intenso desamparo.
Aquele anjo magrelo, encarnado como anaconda morena me hipnotizava com seus olhos verdes, me envolvia, abocanhava, devorava minha alma, minha carne, com ossos, botina, chapéu.

Briga de cobra, de anjo, cavalo, tigreza, garras felinas. Zôo em confusão. Mergulho no abismo de rosas vermelhas, ardentes. Corpo, desejo, respiração, momento, território do efêmero intenso.

Busca do paraíso, o mergulho na lagoa do édem, látego, a queda, danação, surrender.
Da montanha se vê o vale da perdição, e pra lá se caminha celeremente. Canion das almas perdidas.
O avanço para o limiar da consciência da humanidade. Alguém sempre pula, um sempre é escalado.
O inconsciente coletivo te arrasta, te empurra, para o vórtex do desejo, o vale das bocas sequiosas. Eva Maçã você morde. E oferece a banana e tem fruta que você beija muito.
Lambe e cheira, sente o animal selvagem, sofrendo emaranhado na selva africana. Aquela coisa espessa e vai descendo e beija, chupa, lambuza e tira a casca e põe casca, belisca, arranha, geme e chora.
E se lamenta o tempo perdido. E mete os dentes na fruta da árvore do conhecimento. Abre os olhos e se descobre no bem e no mal.

No tatame duro, chão de escritório, no coração pulsante de uma megalópole, uma moreninha testuda, sem teorizações, sem estruturalismo nem dialética, transpõe o limiar da espécie. Salta uma janela para o desconhecido, onde o prazer de viver tem mais um sabor, o da ousadia.

Ninguém quer se apaixonar, já nos avisamos. A gente tem lá seus compromissos. Bem, é claro que não penso jamais em me apaixonar pelo menos não é aquilo que eu espero pra mim.

Tá. Mas quem foi casado por quase quinze anos, sempre teve sexo, dificilmente vai virar um ermitão anacoreta, um devoto contido, no auge da força masculina.
E foi tão gostoso, sem envolvimento emocional. Uma aventura carnal intensa e extraordinária.

Isto te deixa confiante, meio macho, reizinho no pedaço. Aliás, ficar com mulher dos outros faz um bem para o ego. Faz te sentir o bom. Levando harmonia aos lares, satisfazendo a volúpia de vidas anônimas, enterradas nos compromissos dos casamentos rotineiros, sem emoções.

Um marido traído deveria agradecer ao amante o colchão de satisfação, de tolerância, que se injeta na vida do casal. A mulher menos neurotizada etc etc.

O fato é que sair com uma mulher casada, toda aventura de se preparar, organizar cada encontro, as janelas de oportunidade que inesperadamente se abrem, a prontidão de aproveitá-las, tudo isto vai criando uma espécie de treinamento em vida dupla, de aventura, desafio.
Há que se ter criatividade para inventar roteiros longos, plausíveis e lá no meio, sob mil parenteses, o encontro, a pira ardente.

E por aí fui protelando aquele velho sonho de encontrar um grande e verdadeiro amor. O grande e verdadeiro encontro de almas. Mas que chato ! Larga mão disso ! Vamos curtir esta pequena aventura carnal, estes bons momentos de sexo e desejo, agradável incursão pelo território da carne. Ninguém vai morrer de fome espiritual por isto.

Melhor que ficar esperando a mulher ideal, é ter à mão uma zinha de carne e osso e vamos tocando o barco, caminhando com a humanidade.

Aos poucos se vai começando a perceber como funciona a cabeça de pessoas simples, do meio da multidão.

Na fase de nossos primeiros encontros, que no início eram meio raros, muito bem armados e com muita segurança, chegamos à época dos rituais sagrados da Igreja Católica, quando os fiéis desta religião revivem os passos da condenação e morte de seu fundador, o Cristo, Jesus.

Há então o dia da ordália, a véspera do mais sagrado, a chamada Quinta-Feira Santa. Pela tradição, em respeito ao sofrimento Dele, neste dia não se come carne.

Num encontro que tivemos então, uma semana antes, combinamos de nos encontrarmos na quinta-feira, na próxima semana. Ótimo, maravilha. Passados uns dias, quase chegando na data combinada, a figura me aparece à noite no escritório.
- Ah! Não vou poder vir aqui na Quinta.
- Por quê ?
- Ah! Não vai dar. Não pode... .
- Não entendi. Por que não pode ?
- Ah, é Quinta-Feira Santa....
- Mas o quê que tem a ver ?
- Ah ! não pode. É dia santo. É pecado na Quinta-Feira.
- Mas criatura, se você está traindo o marido, se você já está quebrando o sacramento do matrimônio, o que tem a ver agora se é quinta
- Não pode, Quinta-Feira Santa é dia sagrado. É pecado, não vai dar.

Bem, não teve jeito. O melhor foi se resignar e deixar para outro dia.

E assim, estes pequenos episódios, meio folclóricos, iam surgindo aqui e ali. E como não há uma convivência diária, não se sente o abismo de mundos que se tem pela frente.

No início eu me sentia bastante deslocado em relação ao ser humano que estava alí comigo. Não via a menor possibilidade de entendimento, de relacionamento. Então lidava com a situação de forma superficial, descuidada. Tudo fugia tão espatafurdiamente do meu ideal de mulher que nem me passava pela mente algum tipo de envolvimento.

Tinha dedicado meus mais profícuos anos e muito de minha energia numa formação intelectual acadêmica, que me permitisse ter uma mínima noção do mundo. Me achava meio importante por isto, pensava que sabia alguma coisa da vida, da dinâmica geral.
Esta pretensão praticamente tornava impossível qualquer envolvimento emocional com uma pessoa como a que se aninhava em meu peito, com aquele cabelão estranho.
Havia sim, um elemento de curiosidade que me prendia na história. Além da diferença cultural, havia um aspecto que pra mim era novidade. Eu nunca havia conhecido intimamente uma pessoa de cor negra. Nunca havia me deparado, no recôndito da alma, com uma pessoa que trouxesse no inconsciente uma herança de trezentos anos de escravidão, de opressão.
Pra mim eram uma ou duas sessões semanais de sexo. Só. Jamais me envolveria mas estava conhecendo de perto alguém de uma etnia onde tudo era novidade pra mim.

Aqueles encontros foram se repetindo e aos poucos, ao longo do tempo eu refletia sobre os fatos. Fui começando a ouvir a pessoa. Tentava entender seus motivos, ver o mundo com seus olhos. Pensava em como poderia passar noções de consciência política, visões de mundo mais articuladas.
Mas sem imposição de padrão exterior. Se eu aparecesse com uma "revelação" em seu mundo, qualquer que fosse, faria substituir uma opressão por outra.
Para conseguir que isto acontecesse, este trabalho orgânico, eu próprio deveria me libertar de meus modos, realizar em mim o que pudesse acontecer na pessoa. Permitir que brotasse em seu próprio ser uma individualidade, uma independência de análise do mundo e ser sincero em minha autocrítica.

Era um processo de uma vida inteira. Você não pode seguir um raciocínio intelectual, um método cartesiano com quem nunca teve acesso a método nenhum. Era uma coisa empírica, voltada pra cada situação. Eu tinha que manter uma postura quase felina, um estar consciente sem motivo, sem foco. Não poderia lançar bases à priori. Tratava-se de apenas viver a vida.

Mas havia ali um segredo, uma cumplicidade que também me obrigava a me desnudar um pouco sem me expor nem me mostrar fraco.

Mas não tinha como assumir postura professoral pois pra mim também toda a situação era inédita. Em um universo novo, coisas desconhecidas passam a fazer parte de seu cotidiano e não há como pensar sobre algo totalmente inédito.

A gente não vem pra vida com manual de instruções. A moça relatava que, por exemplo, tinha uma aflição, um mal que a fazia frequentar um psiquiatra de posto de saúde e que lá se abastecia de um medicamento proibido. Mas não conseguia verbalizar o que tinha, ou sentia, não sabia informar de qual patologia era tratada, o tipo de remédio (de uso restrito), não lembrava o nome, a marca. Um desamparo total.
Ou seja, até pra isto, tentar entender seu verdadeiro sentimento, o que a fazia sofrer, havia que adotar uma postura não epistemológica se não, não falaria sua língua.

Bem, apesar de tudo aquilo, do infinito desconforto, da falta de assunto, de pontes comuns, a distância de meu locus, ainda assim, covardemente eu ia me banhar nas águas rasas do conforto sexual.

As vezes me pegava comentando que o que interessava não era cérebro e do que importava eu estaria bem servido. Ninguém faz amor com o cinza encefálico e sim com o vermelho, essas coisas.

E tinha como álibi a experiência mal sucedida com uma doutoranda em linguística.
E o fato de que a vara-pau batia de dez a zero, com sua animalidade, o sexo culto da outra.
Outra que por sinal era viciada em café preto forte, sem açúcar. Meu Deus, imagina, você gostar de café sem açúcar ?! Que neurótica, credo !
Muitas vezes uma magnífica transa vale por cem anos de regência verbal. E lá continuava. Naquele ritual de amantes secretos, encontros roubados, fugidios.


As vezes me questionava se estava agindo corretamente. Se não deveria me guardar para um amor verdadeiro, elevado, um encontro de almas.
Consolava me dizendo que um homem não pode viver abrasado. Que estas vivências do baixo ventre não iriam me atrapalhar quando surgisse a mulher verdadeira. E com isto me jogava mais no trabalho, relegando a busca do verdadeiro amor.

Tinha resolvido uma ponta da equação, o sexo. A outra ponta, o dinheiro, estava em obras.
A dimensão do sentimento puro e verdadeiro, bem, aconteceria, quando tivesse que ser.

Depois de tudo transcorrido, olhando pelo retrovisor do tempo, se percebe que o componente fruto proibido, estar fazendo sexo em situação de risco, era responsável em boa parte pelo potente motor da excitação.

Com justiça se pode dizer que havia pouca arte, sedução, pouco talento sensual.
O acanhamento, a mecanização geralmente era a tônica dominante. Uma alma desmagnetizada, desindividualizada pela comunicação de massa, a falta de uma originalidade cultivada, não resulta numa independência, no desenvolvimento de uma arte de amar, no cultivar os prazeres sensuais.

Não estou com isto querendo dizer que não houvesse um extremo apego à carnalidade, de ambas as partes, uma entrega total, subserviente ao desejo. E tudo isto não se percebe na ocasião. Está bom, tá gostoso, tá quentinho, proibidão: vamos em frente !

Fator que precisa ser comentado em defesa da pobre alma, é que, da excitação que a vara-pau selvagem me despertava, além da beleza facial, da deliciosa elegância das magérrimas formas, da telúrica pele mulata africana, além da formosura e perfeição de uma das bundas mais lindas que beijei, a atitude única de se arriscar e romper com os grilhões de um casamento que não a fazia completamente feliz.

Esta coragem, esta audácia, pairava no ar como um mistério.
Como ? eu me perguntava, uma pessoa que não possuía grandes elaborações intelectuais conseguia tomar uma atitude assim ? Esta ousadia, isto era um aditivo potente no combustível que me incendiava.

Muitos foram os momentos bons, as alegrias e prazeres de se caminhar juntos. Mas a dor que me reservava o final, ah ! Soubesse, jamais teria pisado neste shangri-lá.

Entre os muitos prazeres insuperáveis que você tem quando sai com uma mulher casada, é a de ser o titular de seus desejos.
Sentí-la gemendo e chorando sob seu cetro te confere uma agradável sensação de importância.

Íamos combinando nossos encontros, nossas escapadas. Aos poucos eu ouvia aquele outro mundo, outro ser.

Isto leva tempo, laços lentamente se formando. Não se passa a gostar de uma pessoa assim de uma hora pra outra.

Mas o caminho do sexo vai subindo para o coração. Não que não houvesse coisas absurdas, situações de risco, de perigo.

Interessante é que, muitas vezes,o ridículo, o espatafúrdio improvável é que acabam facilitando o nascimento da compaixão, do afeto, do sentimento.

Houve uma época em que por fortes reveses nos negócios, acabei levando pequena mudança de descasado ao escritório, já sem funcionários; fiquei morando no próprio local de trabalho.

Já tínha então a cama alí mesmo e as visitas íntimas passavam a ocorrer nas noites, após o marido sair para o trabalho ou inusitadamente, nas primeiras horas da manhã.

Maridão maitre, trabalhando em bares e casas elegantes, servindo a elite, mulher fazendo serão.

Uma fase das mais agradáveis.

Estabelecia-se uma rotina de risco e aventura num micro-cosmo.

Marido sai à noite para o trabalho, mulher despachava a filha pra cama, prédio já vazio. Descia pé-ante-pé até o terceiro.

E tome bandeira do divino, Mistérios Gozosos da Divina Increnca.

Eis que uma noite a menina acorda querendo alguma coisa e a mãe não está. Preocupada, liga pro papi no trabalho, dizendo estar sozinha em casa. Papai pega um taxi e vem pra casa. Porteiro do prédio não viu ninguém sair. A mãe, começando a função no Teatro da Entrega, ouve a porta do prédio se abrindo e num rasgo de intuição pressente a confusão e sobe voando até casa.

Tempo de entrar, respirar, relaxar, marido sai do elevador." - Que que houve ? A menina me ligou, você sumiu ? " -"Que isso ? Tava na escada, fumando... ".

Imagina se não tivesse tido a intuição e subido correndo. O marido chegaria, iria ao apartamento, não a acharia. Perguntaria para o porteiro. Não ninguém saiu. Volta pro apartamento. Aí ? Chamaria a polícia ? Ela apareceria no meio das escadas, subindo de volta ? Ficaria confusa a situação.

Capítulo à parte merecem as aventuras das matinas. Morando no escritório, um minúsculo apartamento, outra janela abriu-se para nossas lides: as manhãs.
O marido voltava sempre de madrugada, final da noite. Colaborava com a matança, o fato de que geralmente após terminado seu trabalho, saía a visitar amigos em outras casas noturnas e ficava socializando, copos e botelhas, até altas horas.

Quando voltava, só queria merecidamente dormir até o meio do dia.
A abnegada mamã leva a filhinha para o turno matinal da escola infantil.
Pontual lá deixava a menininha e voltava direto pra casa.
Como toda mulher correta sua vida era inteiramente dedicada ao lar. Só que o prédio ainda não tinha acordado. Os frequentadores dos escritórios iam chegar aos poucos, bem mais tarde. Maridão roncando no sétimo. Deliciosamente a dona passava no terceiro andar. Porta sem chave, entra sem bater. Dá um salto sobre mim. E tome crueldade.

As vezes, de maldade, sem falar nada, nem bom dia nem nada, chega, vai chupando meu dedão e sobe, sobe, aquela cachoeira de desejo.

Outras visões do Kama Sutra: aquela bela morena deitada ao meu lado. Num golpe cavalgo seu peito e subindo de joelhos me aproximo de sua face. Com minha monumental jeba escarlate, golpeio suas delicadas naturais sobrancelhas, sua grande testa, aplicando-lhe uma surra de vara-doce. Massageio seus olhos, açoito sua face canelada, escarafuncho suas orelhas, imprimo o silêncio em sua vasta boca vermelha, arisca e gulosa, botejando meu látego pujante.

Minha proverbial estrovenga, mítica tromba, laica, louca, zoológica. Dragão sem patas, de feiura ancestral soltando fogo pelas ventas. Aquele bocagulosa, pomba gira tresloucada, enorme cubano, brasa adentro.

Beleza acima do bem e do mal. O belo despertando numa cena íntima, sem pudor, sem ternura. A vertigem de uma maria padilha, olhando envesgada, boca lotada, ridícula cena bisonha, rasa, prosaica, querendo apagar a enorme brasa.

O rude, primitivo mangalho, placas, veias saltadas, escamas, protuberâncias, milhões de vasos injetados, golpeando a bela cútis morena, princesa núbia de olhos cerrados, escrava africana pelo senhor açoitada, alfabetizanda da única língua que interessa, o amor.

Uma noite minha amada saiu com marido e foram a um barzinho encontrar amigos, beber, espairecer. Fui dormir. Nada fora combinado.
Alta madrugada, eis que alguém entra no meu aposento e me usa descaradamente.
Chegaram da farra. Subiu com o marido, o porcão cai na cama e encapota. A mulher sempre mais resistente que o homem (ou mais esperta, mas ainda assim completamente bêbada) desce e vem me imolar no terceiro andar.
É um tipo de coisa que me deixou um pouco preocupado. Fui usado meio que sem consulta, sem conversa. Bem, era uma boa causa. Não vamos ser "ranz".


A Amiga

Há coisas que não se faz e depois temos uma vida para curtir um leve arrependimento.
Uma amiga, que há tempos não se viam. Casada, ela e marido também da área de serviços em bares e restaurantes. Clara, descendente de italianos ou alemães, nova, bonita mas nada de extraordinário. Fim do dia as duas se encontram e vão bebericar em barzinho.
Ao final fui chamado para levá-las pra casa.
Nos encontramos, as duas já em estado bem adiante do sóbrio. Muito alegres, cheias de mãos e safadezas. Beijinhos e ois e mãos no pescoço, no joelhos, muitos toques e proximidades. Esfuziante celebração de amizade e tudo o que um homem quer.

O sexo faiscando no ar.

Amargamente me arrependo. Ao invés de entrar no clima e corresponder aos tatos e contatos, me travei numa postura séria. Só um mínimo empurrão e teríamos brincado os três, celebrado uma amizade mais íntima e deliciosa.
Teria feito muito mais pela vida de duas amigas e seus respectivos casamentos, tivéssemos ido fazer amor sem frescura . Porque agi assim ? Não sei. Sinceramente não sei.
Talvez marcasse ponto agir como macho responsável, no contexto. Talvez para garantir o naco de carne já em meu poder. Sei lá. Chance perdida. Arrependimento. Paciência.


Anos para se ir conhecendo um pouco uma estrutura-pessoa. Havia uma tensão facial suave de simpatia, seu sorriso social bem postado, acima de pequenos desentendimentos.
Um treino foi se desenvolvendo com o tempo. Em relação ao fato de irmos mantendo o caso amoroso.
Que a verdade de si interessa mais do que a conveniência de terceiros. Se o que faço me é bom, não interessa a rotulagem social que a isto se dá. A experiência em primeira mão das verdades da vida.

E fomos criando um conhecimento mútuo sobre aspectos práticos da dupla.
Aos poucos foi se distanciando do marido. Eu aumentava de importância.

Descubro que ninguém tem culpa de não ter podido estudar.
Não ter frequentado uma faculdade, um curso superior, uma etapa mais sofisticada de cultura, não deixa ninguém inferior. A pessoa é o que é. Lógico que há uma lacuna abissal que tem-se que subsumir, relevar, passar rápido adiante.

Há "enes" furos no entendimento, na percepção, na ação. E parece que a partir de um ponto, a pessoa que não teve como avançar na formação perde o interesse em buscar aquela complementação ou passa a se virar, a viver bem sem aquilo.
Se acomoda na situação e toca o barco.Via na minha parceira que em seu núcleo familiar, social, havia um endeusamento, uma mitologia que girava em torno de que ser rico ou estar bem na vida, é sempre frequentar bares, boates.
Poder beber e comemorar com amigos, conhecer gentes, sempre ao redor de copos e afins. Isto sim é o máximo.
Ora, para começar a ser elite, um primeiro passo é beber. Beber sempre. Fácil.
Ser rico e ser bem de vida é frequentar bares e boates. Sair pra beber. Tudo girando ao redor do copo. O beber como um símbolo da alegria de viver. Beber nos congraçamentos familiares, festejar e não ser um chato na vida.

Talvez isto tenha sido influência de marido, desde sempre desta profissão de servir em bares e restaurantes e tendo sempre olhado o mundo por este ângulo.

Quem está sendo servido, nem que seja com álcool, sempre se porta como da mais alta corte.
Esta segunda natureza, este considerar o beber como algo superior, parece tão arraigado na mentalidade de uma determinada classe como certos aspectos do cristianismo.
Não se discute. Se aceita. São dogmas e acabou. Contra todas as evidências. Dogmas.

Muitas noites e manhãs depois eis que a parceira fica grávida do marido. Segunda filha.

Resolvem ir tentar a vida na capital do país onde ele já tinha parentes. Levamos a situação até onde deu. Mulher grávida pulando a cerca, ai meus pecados... .
Finalmente se mudam pra capital.

A investida não funcionou e de novo, megacity.
Volto a vê-la quase um ano depois de terem partido, filha nova e tudo. Uma reunião após um tempo de separação é uma experiência inesquecível para um casal de amantes.
O corpo cobra as saudades, carne sedenta por paixões viscerais. Fogueira.

A primeira vez que nos vimos, início de um dia de semana, estaciono numa travessinha isolada de uma movimentada artéria de centro financeiro. Eterna abnegada: como se tornar indispensável na vida de um homem.

Nesta volta, vão residir numa cidade vizinha, quinze kilômetros do centro onde estávamos.

Principia trabalhar em casa noturna, jogos eletrônicos de azar. E aí tem-se nova fase de encontros, de roteiros malucos. Saídas de madrugada para levá-la do trabalho para periferia e toda uma mudança de rítmos.

A era do hotelzinho barato no caminho. E vamos lá bater ponto. Os mais assíduos fregueses da casa. O corpo de um vai se amoldando ao do outro, querendo mais espaço em sua alma.

O surgimento de um horizonte sonhado. Um dia, a possibilidade de sair deste tipo de vida de merda. De não ter que se separar depois de fazer amor. Estivéssemos juntos, faríamos uma comidinha. Teríamos um cachorrinho, Viver juntos. Com "partileira" e tudo.
E não ter que logo vestir a roupa, retocar o cabelo, se arrumar e ir pra casa, antes que estoure problema.
E isto vira um mote recorrente. Volta e meia se resvala neste assunto, nesta possibilidade. Mas nada concreto ainda. Nada forçado. Acaba ficando uma espécie de sinal no céu, um eldorado no horizonte.
Um dia, quem sabe ?


Tinha saído mais cedo. Eu a pego no trabalho, levá-la pra casa. Cupido no ar, antes porém, hotel amarelo. Na ída, carinho, intimidade. Geralmente pousa a mão em minha perna e aos poucos mapeia a região à caça de tesouro. Bem, o terreno não é tão acidentado assim.
Mas algo chama a atenção de sua boca cereja. E já estou infringindo todas as regras do batalhão de trânsito, no sétimo andar da pista.

Enquanto mudo as marchas do meu fusquinha pela longa e mal iluminada Chico Morato Avenue, com a mão esquerda ela sincroniza meu câmbio com as velocidades, torques do desejo.
Passando pela igrejinha do lado direito, lança um olhar ao Cristo Pendurado. Sem abandonar minha taconha, com a direita se benze, reverendo sinal da cruz.

Muitas vezes quando por algum motivo não podíamos ficar no hotel, já na subida do morro pra sua casa, saindo da parte mais movimentada do bairro, suplicava por carinho mais íntimo.

Bastava um pedidinho. Meigamente um soluço muxôxo e doce, se aplicava ao trabalho de me encher de prazer.

A fragrância do perfume que usava, as lembranças, sua presença ficaram em minha vida como restos de uma festa.
Bolo, farelos espalhados pela mesa, pela pia, pelo chão. Tenho que remover os pedaços maiores e limpar tudo meticulosamente com uma escova.


Remover cada partícula desta dolorosa saudade. Este amor carnal que foi entrando, transformando meu sentir, meu ver, o viver. Agora tem que ser desmontado, escrutinado, passado a limpo, removido cada fragmento.

O mergulho no infinito túnel que se abria quando a abraçava, no perfume suavemente canelado com toques de flores da savana ao calor da brisa vespertina, de seu pescoço, seu colo.

O doce pedaço de carne negra sedenta, bom de mergulhar, sonho eterno de uma áfrica amada, berço do inconsciente. Nunca um perfume e seu vocativo se casou tanto com uma pele de pêssego e bronze.
Doce viagem, um chiclete dos desejos, dos sentidos.
Voluptuosa deusa do sexo e do prazer, vaca voadora, piranha das galáxias. Doloroso balanço este... .


A cada temporada, um hotel. Paulista Garden, Lisboa, Pelourinho.

Presentear com lingeries finas, calcinhas elegantemente essenciais. Adornar aquele corpo negro maravilhoso. Sutiãs ricamente trabalhados, levantando aqueles peitos precocemente cansados, ainda belos. Testemunhos de sua vivência de mãe mas também triste mostra de um exaurimento espiritual, da falta de sonhos que as duras realidades da vida impõe aos mais simples, mini-tragédia étnica, psicológica.

Nossos cunilingui, como um abridor de garrafas, ligações diretas com a felicidade.
Num stompt brindava-se o céu.

Eu vestia tão bem aquela imunologia ! Saía a viver com uma máscara rosa-encarnada enfiada na cara. Um chapéu encarapinhado, um sorriso de vampiro saciado, vacinado contratodo tipo de apequenamento.

Não precisava de jogging, caminhada, academia, nada de aborrecimentos. Batia em meu peito um coração rosa-encarnado. Sete centímetros de massa precipitada, buraco negro do universo. Atrai tudo ao redor, até os raios de luz. Quanto mais os sentimentos de um desavisado. Ah ! Os óios da cobra verde, hoje foi que arreparei... .

Os anos vão se passando, a presença se solidificando. Já não mais garçonete em jogos eletrônicos de azar, agora hostess de clube de danças.

Resolve que queria melhorar de vida, aprender alguma profissão, escalar um patamar profissional.
E temos então cursos matutinos de cabeleireira. E temporada de novos horários e hotéis.
Em seguida, outros ambientes de trabalho. Vai trabalhar numa importadora de produtos de cosmética. E tem sua época de divulgadora, visitando salões de beleza, demonstrações das tinturas e químicas que vinham da Itália.

Deste país vinham os produtos e especialistasque treinavam aqui os funcionários que iriam divulgá-los. Da bota também um técnico especialista em jogar charme sobre desprevenidas aprendizes. Um madurão cheio de olhos e garras sobre as pobres nativas e seus desprevenidos amantes.

Simpática mulata de olhos quase verdes, magra, bonita, elegante, trinta e tantos anos, conhece senhor italiano, rodado porém inteiro, beirando os 70, provavelmente do tipo elegantemente vestido, bem apessoado, simpático, bon-vivant.

Perfil ideal para minha cabrochinha, que nem minha direito era e que tinha como traço característico preferir e ver beleza em homens maduros.

Se encantou do vovô lobo e começou-se uma fase em que tive que exercer as artes do despreendimento e tolerância.
Começa falar da pessoa e se vê que não se muda muito de assunto. Hummmm.
Fui sendo paciente e sábio, torcendo para aquela história, semana de treinamento passar logo.

Parece que as investidas não foram inúteis. Nada muito sério. Nesta altura quem poderia avaliar o que era sério ou não ? Pelo menos na primeira temporada foram do platônico aos beijos com desenvoltura de adolescentes.

O que se pode fazer contra a paixão? Você no papel de amante, de viração sexual, vai falar o quê ?

Isto, terem ficado nos beijos apenas, ao que pude ser informado pela sua judicícia.
Não colocaria mão no fogo. Nesta altura eu um amante que traía o marido e que poderia ser traído por um forastieri.

Paciência, me aconselhava. Todo mundo está sujeito aos vírus das paixões repentinas. Minha sobrevivência era não permitir que se criasse um clima envenenado, não fechar o tempo. Deixava a coisa fluir para um patamar de liberdades relativas. Comentar, rir, se portar meio como coleguinha.

Felizmente Dom Juan Lorenzo volta pro país de origem. As ameaças continuam. Fala-se de estágio direto nos laboratórios, na Itália. E tome promessas, fantasias, telefonemas internacionais. E lá se vai longa temporada de sonhos, preparações, compra de dicionários, de livros básicos de italiano, eu meio que de bobo neste segura-vela interoceânico.

Aprendendo o quanto doi se envolver por sexo com uma zinha que também corre o direito de conhecer e se envolver ou não, com quem quiser.


Se éramos amantes, se tínhamos este paralelismo, não havia possibilidade de pressão, de pugnar por exclusividade. Eu tinha que ter certo fair-play e permitir algumas liberdades. Ainda não tinha lá tanto vínculo emocional que me deixasse enfurecido mas ao mesmo tempo era um jogo típico de fritura. A chapa me esquentava. Mas, cachorramente, não largava o cinismo e a me acovardar, as poucas camadas de envolvimento.

Uma situação porco-espinho. Largar não poderia, me atracar, sofreria. Vai-se administrando.
E a situação chega ao paroxismo com a segunda visita dos treinadores.

Daqui a dois meses fulano... . Daqui a trinta dias fulano etc etc.
Daqui a... . Dia tal fulano etc etc. Já se prepara o terreno, sou colocado devidamente de lado.

Hoje tem treinamento, amanhã se vai para não sei onde, dia seguinte tem isto, depois mais aquilo.

Foi amargo engolir a temporada. Cheguei a perder a cabeça. Liguei num rompante em horário noturno, já se teriam acabado as atividades de trabalho.
Ouço ambiente de bar e calçada. Hum, como dói, que saco !... .

Passado o calvário, temporada finda, pensei fosse encontrar uma parceira mudada pelo conhecimento carnal de um novo amante, insuflada na vaidade pelo novo (embora um tanto gasto - mas quem vê charme não vê defeito em data de nascimento), italian lover. E o que percebo ? Nada houvera. Nada houve ? Não rolou. Não houve.

Não deu. Sei lá. E o que sei ? Nada. Muito pouco. Não me revela nada. Acabou, episódio encerrado. Não abriu detalhe, isto, aquilo. Se foram para um hotel, se transaram, se não. Se foi bom, se não foi. Deu a entender uma decepção, sem detalhes.

Nunca soltou a tramela, nunca entrou em detalhes sobre a razão da decepção. Talvez o Don Juan a tenha subestimado, usado e cuspido. Vá lá saber. Manteve seu castro. Foi-se o galã. Ficou-me uma certeza: aquela mulher aprendera que era dona de si mesma. Quando e se, seu coração batesse por alguém, não faria ouvidos moucos.

Retomamos a vidinha de pulação aqui e ali. Um dia sim, outro não, outro sim, outro sim e outros não e não; Jesus não pode aqui, Jesus permite alí.

No horizonte sonhos vão tomando forma e no dia-a-dia providências sendo ataviadas.

A idéia de se criar uma vida juntos, a busca por alugar uma casa, a entrada de pedido de separação do marido. Coisas foram acontecendo e aos poucos o destino mostrando suas passagens.

Papai e Mamãe haviam se encantado. Tínhamos a casa deles lá no interior, grande, confortável. Viu-se que poderíamos instalar a parceira lá. E seria interessante porque teríamos alguém ali, presente, a administrar uns aluguéis do espólio.

(continua na Segunda Parte)

2 comentários:

  1. Pai, eu tenho uma sugestão: as pessoas ficam com um pouco de preguiça quando se deparam com textos muito longos. Se você postasse um pouco por dia, poucas linhas, textos curtos, etc, talvez despertasse mais a atenção dos leitores. Ah, isso também poderia criar um suspense.

    Bjo,

    Rubi.

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  2. Estamos em outro território. Quando e se chegar a publicar a segunda parte do texto, foi porque já me escalavrei e cheguei à saturação criativa. Não tenho como publicar pedaços porque a coisa como um todo vai amadurecendo e as vezes se retoma do zero praalcançar um efeito que ser quer. Se faz e refaz até o limite da sanidade.

    Acho que vou é variar o cardápio enquanto isto. Colocar uns textos outros de menor tamanho.
    Beijos

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